quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Amélia, a cronista

Amélia abafa o silêncio da tarde enquanto escreve: o som do grafite produz uma espécie de música rápida e desvairada no papel que antes era branco; a moça é escritora, cronista. Escreve sobre o que vê e o que gostaria de ver; escreve porque é solitária e surda. Cria nos textos o que gostaria de ser se não fosse Amélia.
Todas as tardes, a moça senta-se no café perto do seu prédio e põe-se a observar os outros clientes: a garotinha que saboreia uma fatia de bolo, como quem nunca sentiu o vento no rosto, e conversa alegremente com a mãe; o rapaz que lê um livrinho pequeno de auto-ajuda e bebe um longo e vigoroso gole do seu capuccino; o casal de jovens que insistem em se olhar e deixar os dois copos com suco de laranja esquentarem na mesa... Amélia observa tudo sem poder escutar. De todos os sons, o único imaginável ou quase “escutável” é o da música escrita que ela mesma compõe.
Então, sentada sozinha num canto onde podia perceber tudo que acontecia ao seu redor, Amélia abre o caderninho marrom e começa a escrever como quem anota observações muito importantes, como se aquele lugar fosse o seu laboratório e as pessoas os animais a serem observados. Descreve minuciosamente o tecido do vestido azul da garotinha ao seu lado e o som que os babados brancos na baínha do vestido fazem quando a menina pula. Olhou para a direita e concentrou-se no rapaz que lia o livrinho: magro, aparentemente alto, com óculos redondos e que, de uma forma muito peculiar, empertigava o aro fino da armação a cada página lida. Amélia imaginou qual seria o assunto do livro – um conto, um ensaio, uma poesia? – pois não enxergava o título na capa verde-musgo atrás dos longos e finos dedos do dono. Por fim, deu uma última olhada no casal de namorados que conversava no fundo do local: os dois ainda se olhavam timidamente, pareciam ter esquecido as horas e os copos à mesa.
E a tarde parecia não ter fim antes de Amélia reparar as horas. No céu escuro da noite, voltou andando sozinha e sorridente para casa. No caminho, imaginava o som aveludado das nuvens brancas e um chiado peculiar que, talvez, as folhas produzissem umas nas outras. Imaginou se o vento falava e o que ele estaria tentando dizer quando o clima estava frio; imaginou se a lua emitia algum som quando aparecia no céu noturno. De todos os sons que Amélia tentou criar, somente um era sempre igual: o som das letras escritas no caderninho marrom, da melodia vibrante que ela fazia num pequeno parágrafo e na sorridente harmonia que, como se fosse uma orquestra sinfônica, tocava quando todas as vezes que ela pontuava a última linha de suas histórias.

5 comentários:

Rha Belloti disse...

O blog tá ótimo com essa cara nova. Apesar de eu amar o layout antigo! Rs

Fico imaginando como as pessoas com deficiência visual e auditiva têm facilidade para criar. Isso tudo porque elas dependem de criar para expressarem o que tomam como conhecimento, ao contrário de nós que já temos tudo completamente pronto e muitas vezes não nos ligamos na importância dessa sensibilidade.

E, no fundo, essas pessoas conhecem tudo com muito mais propriedade do que nós. Porque enquanto nos tornamos dependentes do tato, da visão e da audição, elas são independentes para descobrir, pesquisar e criar.

Estava com saudade disso tudo aqui, amor. Beijão.

Bruno Francesco disse...

Belo texto cheio de detalhes, descrições, você se citua na história com as referências.

Bruno Francesco disse...

Belo texto! Suas descrições e detalhes cituam o leitor na história parabéns.

Wellington disse...

Que ppostagem tocante, pois trata de um assunto que poucos discutem: a menina cronista é surda. Achei bem descritiva sua postagem, mas sem ser cansativa! Fui lendo com mesmo ânimo do início ao fim!!! Mas, e o casal em? Que será que acontecerá com eles dois? Qual será o assunto que o magrelo alto estava lendo? Só você escrito sabe se inclusíve eles tem futuro nas próximas postagens hihihi!
Parabéns!!! Sucesso!

=D

Visite meu blog KKIO:
http://kkio.wordpress.com/

Guarda-Chuva Vermelho disse...

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Eu ameii *.*

Já percebeu que as vezes conforme agente lê, parece que tem alguém narrando pra gente e simplesmente começamos a ver [imaginar] tudo o que estamos lendo? *.* Essa sensação é tão gostosa.

Beijos