Amélia abafa o silêncio da tarde enquanto escreve: o som do grafite produz uma espécie de música rápida e desvairada no papel que antes era branco; a moça é escritora, cronista. Escreve sobre o que vê e o que gostaria de ver; escreve porque é solitária e surda. Cria nos textos o que gostaria de ser se não fosse Amélia.
Todas as tardes, a moça senta-se no café perto do seu prédio e põe-se a observar os outros clientes: a garotinha que saboreia uma fatia de bolo, como quem nunca sentiu o vento no rosto, e conversa alegremente com a mãe; o rapaz que lê um livrinho pequeno de auto-ajuda e bebe um longo e vigoroso gole do seu capuccino; o casal de jovens que insistem em se olhar e deixar os dois copos com suco de laranja esquentarem na mesa... Amélia observa tudo sem poder escutar. De todos os sons, o único imaginável ou quase “escutável” é o da música escrita que ela mesma compõe.
Então, sentada sozinha num canto onde podia perceber tudo que acontecia ao seu redor, Amélia abre o caderninho marrom e começa a escrever como quem anota observações muito importantes, como se aquele lugar fosse o seu laboratório e as pessoas os animais a serem observados. Descreve minuciosamente o tecido do vestido azul da garotinha ao seu lado e o som que os babados brancos na baínha do vestido fazem quando a menina pula. Olhou para a direita e concentrou-se no rapaz que lia o livrinho: magro, aparentemente alto, com óculos redondos e que, de uma forma muito peculiar, empertigava o aro fino da armação a cada página lida. Amélia imaginou qual seria o assunto do livro – um conto, um ensaio, uma poesia? – pois não enxergava o título na capa verde-musgo atrás dos longos e finos dedos do dono. Por fim, deu uma última olhada no casal de namorados que conversava no fundo do local: os dois ainda se olhavam timidamente, pareciam ter esquecido as horas e os copos à mesa.
E a tarde parecia não ter fim antes de Amélia reparar as horas. No céu escuro da noite, voltou andando sozinha e sorridente para casa. No caminho, imaginava o som aveludado das nuvens brancas e um chiado peculiar que, talvez, as folhas produzissem umas nas outras. Imaginou se o vento falava e o que ele estaria tentando dizer quando o clima estava frio; imaginou se a lua emitia algum som quando aparecia no céu noturno. De todos os sons que Amélia tentou criar, somente um era sempre igual: o som das letras escritas no caderninho marrom, da melodia vibrante que ela fazia num pequeno parágrafo e na sorridente harmonia que, como se fosse uma orquestra sinfônica, tocava quando todas as vezes que ela pontuava a última linha de suas histórias.
Mostrando postagens com marcador texto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador texto. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
domingo, 19 de julho de 2009
Da autora
Letras soltas são o que eu tenho, formações quase inexpressivas de pensamentos e sentimentos, de mediocridade. E fecho os meus olhos pequenos e escuros sob uns óculos quadrados e penso, imagino qual palavra combina mais ou mesmo procurando por uma na ponta da língua.
Tem gente que prefere nem escrever e evitar tais problemas, mas eu não, nunca... Por mais que não existam expressões que completem os meus sentidos ou dizeres o bastante, eu as escrevo, mesmo que seja inventando e pulando em idéias, “desconcatenando” as interpretações que o resto faz quando lê o que eu (humildemente) me proponho a escrever. Mas critique o que eu escrevo, por favor: parece-me que, quanto mais os auto-intitulados “críticos” hesitam em dizer “mas que merda!” e franzir a testa para uma publicação desengonçada, mais eu perco a vontade de abrir o caderninho vermelho de espiral dourado e riscá-lo com lápis no. 2. Algumas pessoas olham bem o texto, inclinam a cabeça para a direita e dizem “Booom, muito bom! Parabéns!” e eu faço uma expressão de “obrigada” pensando “Quanta opinião!” sarcasticamente, claro. Ta bom, eu também faço esse tipo de comentário que todo mundo odeia, mas, desculpe, eu não sei nada de futebol ou atletismo, muito menos sobre religião, apesar de me arriscar com a apolítica (graças às segundas-feiras).
Tem vezes aqui que eu me apaixono – isso é freqüente – e dou um pulo da cama pra escrever: falo de estrelas, lua, sol, estátuas, trabalho, mármore, de qualquer coisa que eu ache conveniente, apesar de não combinar muito com o sentimento, ou então escuto música (clássica, de preferência) e tento descrever pacientemente os acordes de violão, as notas de piano, dos violinos e finjo que tudo o que eu escrevi são palavras de quem tem um amor correspondido – infelizmente, alguns acreditam: quem dera que a metade do que eu escrevi fosse um sentimento certo, pronto para alguém. A verdade é que nunca tem ninguém para os textos, o que você lê é uma idealização pobre e cheia de clichê. Também me aventuro em desabafos fúteis, como você pode procurar aqui: alguns estão um tanto escondidos com palavras bonitas, porém, se você tiver paciência, vai ver o quanto eles são juvenis e baratos – coisa de quem acha que escreveu um bom texto e espera muitos comentários e elogios, gente concordando, etc.
Também tenho vontade de escrever bem (se você notou os erros de ortografia e concordância), muita. Não, não é “sonho”, é um plano e estou pondo-o em prática, desde março desse ano, acredite, e eu prometo melhorar, mas, por enquanto, já fico feliz de publicar os meus contos aqui. Orgulho-me muito disso, sabe? Não sou do tipo que revela o que pensa depois que você me diz o seu nome, levam meses e, mesmo assim, você apenas consegue reunir pistas do que eu estou pensando (geralmente as pessoas não obtêm sucesso). Você só aprende a conviver com um humor seco, negro e sem graça que, de vez em quando, torna-se “charmoso”, daqueles que fumam um cigarrinho e bebem um gole de café preto sem açúcar... Você já bebeu café preto sem açúcar? Se não, não tente de primeira, vá diminuindo as medidas aos poucos: o gosto amargo – caso você queria experimentar - te dá um tapa seguido de uma gastrite imediata (na maioria dos casos), mas, enfim... Só aviso isso pela minha suspeita de úlcera. Ah, e eu não fumo, sou do tipo de pessoa que começa a tossir compulsivamente quando tem alguém fumando do lado, uma espécie de “protesto”, até porque o meu cabelo também não fuma.
Não toco instrumento nenhum, apesar de achar que “a música foi feita pra mim”, mas tenho uma vontade enorme de aprender bateria e formar uma banda ou de jazz ou... Jazz. Rock? É, pode ser, é bom e eu adoro, mas uma banda de jazz seria melhor: a minha música predileta e Decoupage, de Hank Levy (o cara não gostava das pessoas dançando jazz, eu acho que ele não sabia dançar, e compôs um ritmo pra ninguém conseguir também). Gosto imensamente e irrevogavelmente de Beatles e não simpatizo mais do U2, porque eles tentaram imitar a banda tocando do alto de um prédio (e isso foi imperdoável pra mim). Também não vou muito com a cara dos Rolling Stones, não sei porquê, deve ser a velha história dos Santos Que Não Se Cruzam, vai saber; nunca parei pra escutar Hendrix ou Joplin, e acho o Jim Morrison um gato – foi um gato - (e o vocalista do The Hives também – aquele malucão, lembra?). Também acho que a Elis Regina foi uma egoísta de ter limitado o seu trabalho quando morreu e que Caetano Veloso só era bom na época da ditadura, hoje em dia ele não tem mais o que protestar.
Tenho Orkut, Facebook, Deezer, Myspace, Last.fm e Twitter (só uso o primeiro – mentira, sigo 7 pessoas no Twitter) e não participei do #forasarney porque tava na cara que aquilo ali não ia dar em nada - ou você achou que o senado ia dar bola pra “opinião pública”? – e, caso exista alguém nesse mundo que queira me seguir em qualquer rede social fique avisado: eu não vou dar bola pra você, não vou parar pra ler os seus recados, mas vou falar quando precisar. O que acontece é que eu sou do tipo que prefere amizades “ao vivo”, internet só serve para “contatos” e nada mais.
O que mais? Hum... Acredito que não tenha mais nada pra você saber de mim... Ah, sim: eu gosto muito de embromar, adoro fazer coisas sem fundamento algum e acho que encher lingüiça é um esporte para “poucos e bons”, pra pessoas que “sabem” (eu não pertenço a essa minoria tão talentosa). O post termina aqui dizendo “Muito prazer!” pra quem achava o meu perfil pequeno e informando que esse talvez seja o último mês do ano em que eu vá postar algo por aqui, infelizmente. Mas, sabe como é, né? Escolhas também significam sacrifícios.
Até mais.
=)
Tem gente que prefere nem escrever e evitar tais problemas, mas eu não, nunca... Por mais que não existam expressões que completem os meus sentidos ou dizeres o bastante, eu as escrevo, mesmo que seja inventando e pulando em idéias, “desconcatenando” as interpretações que o resto faz quando lê o que eu (humildemente) me proponho a escrever. Mas critique o que eu escrevo, por favor: parece-me que, quanto mais os auto-intitulados “críticos” hesitam em dizer “mas que merda!” e franzir a testa para uma publicação desengonçada, mais eu perco a vontade de abrir o caderninho vermelho de espiral dourado e riscá-lo com lápis no. 2. Algumas pessoas olham bem o texto, inclinam a cabeça para a direita e dizem “Booom, muito bom! Parabéns!” e eu faço uma expressão de “obrigada” pensando “Quanta opinião!” sarcasticamente, claro. Ta bom, eu também faço esse tipo de comentário que todo mundo odeia, mas, desculpe, eu não sei nada de futebol ou atletismo, muito menos sobre religião, apesar de me arriscar com a apolítica (graças às segundas-feiras).
Tem vezes aqui que eu me apaixono – isso é freqüente – e dou um pulo da cama pra escrever: falo de estrelas, lua, sol, estátuas, trabalho, mármore, de qualquer coisa que eu ache conveniente, apesar de não combinar muito com o sentimento, ou então escuto música (clássica, de preferência) e tento descrever pacientemente os acordes de violão, as notas de piano, dos violinos e finjo que tudo o que eu escrevi são palavras de quem tem um amor correspondido – infelizmente, alguns acreditam: quem dera que a metade do que eu escrevi fosse um sentimento certo, pronto para alguém. A verdade é que nunca tem ninguém para os textos, o que você lê é uma idealização pobre e cheia de clichê. Também me aventuro em desabafos fúteis, como você pode procurar aqui: alguns estão um tanto escondidos com palavras bonitas, porém, se você tiver paciência, vai ver o quanto eles são juvenis e baratos – coisa de quem acha que escreveu um bom texto e espera muitos comentários e elogios, gente concordando, etc.
Também tenho vontade de escrever bem (se você notou os erros de ortografia e concordância), muita. Não, não é “sonho”, é um plano e estou pondo-o em prática, desde março desse ano, acredite, e eu prometo melhorar, mas, por enquanto, já fico feliz de publicar os meus contos aqui. Orgulho-me muito disso, sabe? Não sou do tipo que revela o que pensa depois que você me diz o seu nome, levam meses e, mesmo assim, você apenas consegue reunir pistas do que eu estou pensando (geralmente as pessoas não obtêm sucesso). Você só aprende a conviver com um humor seco, negro e sem graça que, de vez em quando, torna-se “charmoso”, daqueles que fumam um cigarrinho e bebem um gole de café preto sem açúcar... Você já bebeu café preto sem açúcar? Se não, não tente de primeira, vá diminuindo as medidas aos poucos: o gosto amargo – caso você queria experimentar - te dá um tapa seguido de uma gastrite imediata (na maioria dos casos), mas, enfim... Só aviso isso pela minha suspeita de úlcera. Ah, e eu não fumo, sou do tipo de pessoa que começa a tossir compulsivamente quando tem alguém fumando do lado, uma espécie de “protesto”, até porque o meu cabelo também não fuma.
Não toco instrumento nenhum, apesar de achar que “a música foi feita pra mim”, mas tenho uma vontade enorme de aprender bateria e formar uma banda ou de jazz ou... Jazz. Rock? É, pode ser, é bom e eu adoro, mas uma banda de jazz seria melhor: a minha música predileta e Decoupage, de Hank Levy (o cara não gostava das pessoas dançando jazz, eu acho que ele não sabia dançar, e compôs um ritmo pra ninguém conseguir também). Gosto imensamente e irrevogavelmente de Beatles e não simpatizo mais do U2, porque eles tentaram imitar a banda tocando do alto de um prédio (e isso foi imperdoável pra mim). Também não vou muito com a cara dos Rolling Stones, não sei porquê, deve ser a velha história dos Santos Que Não Se Cruzam, vai saber; nunca parei pra escutar Hendrix ou Joplin, e acho o Jim Morrison um gato – foi um gato - (e o vocalista do The Hives também – aquele malucão, lembra?). Também acho que a Elis Regina foi uma egoísta de ter limitado o seu trabalho quando morreu e que Caetano Veloso só era bom na época da ditadura, hoje em dia ele não tem mais o que protestar.
Tenho Orkut, Facebook, Deezer, Myspace, Last.fm e Twitter (só uso o primeiro – mentira, sigo 7 pessoas no Twitter) e não participei do #forasarney porque tava na cara que aquilo ali não ia dar em nada - ou você achou que o senado ia dar bola pra “opinião pública”? – e, caso exista alguém nesse mundo que queira me seguir em qualquer rede social fique avisado: eu não vou dar bola pra você, não vou parar pra ler os seus recados, mas vou falar quando precisar. O que acontece é que eu sou do tipo que prefere amizades “ao vivo”, internet só serve para “contatos” e nada mais.
O que mais? Hum... Acredito que não tenha mais nada pra você saber de mim... Ah, sim: eu gosto muito de embromar, adoro fazer coisas sem fundamento algum e acho que encher lingüiça é um esporte para “poucos e bons”, pra pessoas que “sabem” (eu não pertenço a essa minoria tão talentosa). O post termina aqui dizendo “Muito prazer!” pra quem achava o meu perfil pequeno e informando que esse talvez seja o último mês do ano em que eu vá postar algo por aqui, infelizmente. Mas, sabe como é, né? Escolhas também significam sacrifícios.
Até mais.
=)
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Domingo no parque
- Você quer sorvete?
- Quero!
O parque estava cheio no domingo. João resolvera convidar Juliana para dar um passeio, finalmente o homem teve sossego do trabalho e foi nela que o pensamento foi primeiro assim que a sirene da construção tocou.
- Vai querer que sabor?
- Morango.
José também fez planos de se divertir no domingo, só não sabia por onde andava Juliana, mas foi ao parque sozinho mesmo assim: “Quem sabe”, ele pensava, “ela também não está por aquelas bandas. Vai ficar surpresa quando me encontrar...”. A barraca de José ficava a duas barracas da casa de Juliana ou “Moçinha”, como José gostava de chamar.
- Pra você.
- Obrigada, João. Olha lá!
- O quê?
- As rosas! Compra uma pra mim?
- Compro sim, vamos.
João e José não se conheciam, a não ser por aquele dia, perto da Boca do Rio e, claro, por causa de Juliana, menina ainda. Nesse dia, a moçinha decidiu usar o vestido branco de bordado rosa que a avó tinha dado de presente no mesmo dia – era seu aniversário.
- Olha a roda, João!
O sol estava onde sempre deveria estar, assim como a grama, as árvores, tudo certinho, e José também, por assim dizer. Vestiu a camisa azul claro que só usava em ocasiões muito especiais, lustrou os sapatos, fez a barba e usou até colônia. Desceu do bonde apressado e ansioso pela certeza de encontrar a moça no parque. Decidiu começar a procura por onde havia mais gente, pois Juliana era animada e, segundo ele mesmo, sempre tinha muita animação onde havia multidão. Fez a busca, sem muito sucesso no início, mas bastou um segundo para reconhecer os cabelos castanhos no sol: Juliana, vestida de branco, brincava de roda perto do rio.
A menina sorria e pulava, animada com a brincadeira e a companhia:
- Ô, João, corre mais! – insistia a garota.
- Calma! A roda ta girando muito rápido!
O rapaz José inclinou um pouco a cabeça tentando decifrar o porquê de tanta felicidade, olhou para o lado direito da menina e viu mais um sorriso feliz: João dançava e ria com Juliana e esta segurava um sorvete e uma rosa vermelha na mão.
José permaneceu imóvel por alguns minutos, longos minutos, e refletindo, tentando ligar os pontos na imagem que se movia em sua frente: Juliana sorrindo para um rapaz que, provavelmente, teria lhe comprado a rosa e o sorvete, ambos de cor rubra.
- Cuidado, Juliana! Não vai cair! – falou João e fez a menina rir.
José lembrou-se das ilusões intermináveis com a menina: lembrou da ilusão do domingo no parque, em que ia surpreender a moçinha com um encontro casual, que ele seria o rapaz a pagar o sorvete gelado e a rosa vermelha com espinhos. Imaginou tudo o que poderia ter sido o domingo e enfiou as mãos nos bolsos, como um cão que não consegue comida, mas não se conforma com a fome, uma vítima injustiçada pelo destino. A mão direita, aconchegada no fundo do bolso da calça cinza de linho, encontrou uma lâmina, uma faca. Surpreso com o achado, retirou a arma do bolso e correu ao encontro dos namoradinhos que fizeram o seu domingo tão infeliz. João ainda sorria para a Juliana quando José empurrou duas criancinhas do caminho, fazendo-as correr chorando para a mãe.
Juliana ouviu os berros das criancinhas e virou-se para ver o que acontecia por ali e encontrou os olhos vermelhos e furiosos de José. A menina pensou e dizer “oi” e cumprimentar o vendedor de hortaliças da feirinha perto da sua casa, porém, sentiu João largar as suas mãos, deixando a rosa cair no chão e, depois, o sorvete despencar na grama. José não demorou na vingança e, com alguns golpes, abraçou João e manchou a camisa de sangue do golpe que inferiu no pescoço do rapaz, depois manchou os sapatos com o sangue de Juliana e deixou os dois corpos caídos numa grama vermelha.
Um domingo no parque, com rosas vermelhas, sorvetes gelados e amores acabados.
- Quero!
O parque estava cheio no domingo. João resolvera convidar Juliana para dar um passeio, finalmente o homem teve sossego do trabalho e foi nela que o pensamento foi primeiro assim que a sirene da construção tocou.
- Vai querer que sabor?
- Morango.
José também fez planos de se divertir no domingo, só não sabia por onde andava Juliana, mas foi ao parque sozinho mesmo assim: “Quem sabe”, ele pensava, “ela também não está por aquelas bandas. Vai ficar surpresa quando me encontrar...”. A barraca de José ficava a duas barracas da casa de Juliana ou “Moçinha”, como José gostava de chamar.
- Pra você.
- Obrigada, João. Olha lá!
- O quê?
- As rosas! Compra uma pra mim?
- Compro sim, vamos.
João e José não se conheciam, a não ser por aquele dia, perto da Boca do Rio e, claro, por causa de Juliana, menina ainda. Nesse dia, a moçinha decidiu usar o vestido branco de bordado rosa que a avó tinha dado de presente no mesmo dia – era seu aniversário.
- Olha a roda, João!
O sol estava onde sempre deveria estar, assim como a grama, as árvores, tudo certinho, e José também, por assim dizer. Vestiu a camisa azul claro que só usava em ocasiões muito especiais, lustrou os sapatos, fez a barba e usou até colônia. Desceu do bonde apressado e ansioso pela certeza de encontrar a moça no parque. Decidiu começar a procura por onde havia mais gente, pois Juliana era animada e, segundo ele mesmo, sempre tinha muita animação onde havia multidão. Fez a busca, sem muito sucesso no início, mas bastou um segundo para reconhecer os cabelos castanhos no sol: Juliana, vestida de branco, brincava de roda perto do rio.
A menina sorria e pulava, animada com a brincadeira e a companhia:
- Ô, João, corre mais! – insistia a garota.
- Calma! A roda ta girando muito rápido!
O rapaz José inclinou um pouco a cabeça tentando decifrar o porquê de tanta felicidade, olhou para o lado direito da menina e viu mais um sorriso feliz: João dançava e ria com Juliana e esta segurava um sorvete e uma rosa vermelha na mão.
José permaneceu imóvel por alguns minutos, longos minutos, e refletindo, tentando ligar os pontos na imagem que se movia em sua frente: Juliana sorrindo para um rapaz que, provavelmente, teria lhe comprado a rosa e o sorvete, ambos de cor rubra.
- Cuidado, Juliana! Não vai cair! – falou João e fez a menina rir.
José lembrou-se das ilusões intermináveis com a menina: lembrou da ilusão do domingo no parque, em que ia surpreender a moçinha com um encontro casual, que ele seria o rapaz a pagar o sorvete gelado e a rosa vermelha com espinhos. Imaginou tudo o que poderia ter sido o domingo e enfiou as mãos nos bolsos, como um cão que não consegue comida, mas não se conforma com a fome, uma vítima injustiçada pelo destino. A mão direita, aconchegada no fundo do bolso da calça cinza de linho, encontrou uma lâmina, uma faca. Surpreso com o achado, retirou a arma do bolso e correu ao encontro dos namoradinhos que fizeram o seu domingo tão infeliz. João ainda sorria para a Juliana quando José empurrou duas criancinhas do caminho, fazendo-as correr chorando para a mãe.
Juliana ouviu os berros das criancinhas e virou-se para ver o que acontecia por ali e encontrou os olhos vermelhos e furiosos de José. A menina pensou e dizer “oi” e cumprimentar o vendedor de hortaliças da feirinha perto da sua casa, porém, sentiu João largar as suas mãos, deixando a rosa cair no chão e, depois, o sorvete despencar na grama. José não demorou na vingança e, com alguns golpes, abraçou João e manchou a camisa de sangue do golpe que inferiu no pescoço do rapaz, depois manchou os sapatos com o sangue de Juliana e deixou os dois corpos caídos numa grama vermelha.
Um domingo no parque, com rosas vermelhas, sorvetes gelados e amores acabados.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Sabedoria pueril
- Essa tal de “Inocência”, não a entendo! Por que acreditar na verdade de um desconhecido? Acreditar no “sim” fiel e leal... Por quê? – você se pergunta todas as manhãs.
Infelizmente, não posso lhe explicar, você não vai entender nem sequer os conectivos das frases, o que dirá o sentindo da Inocência! Não, não, isso não se compreende, isso se é, e você, sem dúvida, não é, aliás, nós não somos. Quer saber quem entende, ou melhor, entendia? Engraçado, você vai rir: você.
Sim, você costuma entender como a lua e o sol trocavam de lugar durante um ano inteiro ou, até mesmo, porque os gatos dormem tanto. Costumava entender porque (e como) as rosas desabrocham e, também, porque jiló é tão amargo – você fazia cara feia e contava “Jiló é amargo porque é ruim, ora!” e todos ao seu redor riam, pois pensavam saber a verdade sobre o sabor do pobre e desprezado jiló, já você, se perguntava qual era a graça nisso tudo (talvez fosse a sua voz ou, quem sabe, o próprio jiló).
Você também costuma explicar como as árvores crescem sem ao menos entender de biologia e botânica, e ainda nos descrevia com detalhes todos os momentos da planta, desde o broto até a época das folhas caírem:
- Elas caem porque é inverno e tudo fica mais triste, não concorda? – você indagava.
- Sim, deve ser por isso...
- Você sabe por que elas nascem e crescem?
- Não imagino um motivo consistente o bastante, diga-me o porquê.
- Para fazerem sombra quando queremos ler um livro ou desenhar sentados na grama. Caso contrário, não teríamos conforto algum em momentos de prazer.
E todos riam, talvez pensando o quanto você fosse bobo e insignificante diante dos pensamentos profundos e científicos dos homens, e você, mais uma vez, não entendia as risadas ecoantes, muito acima da sua cabecinha genial.
- O que é isso?
- É a lua.
- Lua?
- Sim, não vê bem?
- Hahahaha... Faltam as crateras, não?
- Como assim?
- Crateras são formações rochosas na superfície lunar e você não as desenhou aqui.
- “Formações rochosas”...? – e você pensava como existiriam essas tais “formações” que o homem disse: “Mas é lisa toda a vida, como pode? É só olhar no céu, à noite!” e se questionava mais e mais. Você se questionou tanto que se esqueceu até do amargo do jiló e acabou comendo, sem querer, e achou tudo isso muito natural; daí você também se desfez das explicações, que eu preciso dizer, eram mais sólidas e simples que outras, e se deteve apenas às teorias sobre como nascem e crescem as plantas e porque as folhas caem no inverno e no deserto, o porquê das folhas serem verdes, e descobriu a clorofila, oxigênio, o gás carbônico, os fótons. Viveu, também, as amizades, as paixões, as provações e a solidão. Tornou-se finalmente um adulto e foi trabalhar de terno e gravata, comprou carro, namorou, casou e teve filhos, deu-lhes nomes bíblicos e riu dos desenhos de luas, explicações sobre botânica e os obrigou a comerem jiló amargo. Finalmente os criou e fez questionarem as próprias verdades, crescendo, assim como você.
Infelizmente, não posso lhe explicar, você não vai entender nem sequer os conectivos das frases, o que dirá o sentindo da Inocência! Não, não, isso não se compreende, isso se é, e você, sem dúvida, não é, aliás, nós não somos. Quer saber quem entende, ou melhor, entendia? Engraçado, você vai rir: você.
Sim, você costuma entender como a lua e o sol trocavam de lugar durante um ano inteiro ou, até mesmo, porque os gatos dormem tanto. Costumava entender porque (e como) as rosas desabrocham e, também, porque jiló é tão amargo – você fazia cara feia e contava “Jiló é amargo porque é ruim, ora!” e todos ao seu redor riam, pois pensavam saber a verdade sobre o sabor do pobre e desprezado jiló, já você, se perguntava qual era a graça nisso tudo (talvez fosse a sua voz ou, quem sabe, o próprio jiló).
Você também costuma explicar como as árvores crescem sem ao menos entender de biologia e botânica, e ainda nos descrevia com detalhes todos os momentos da planta, desde o broto até a época das folhas caírem:
- Elas caem porque é inverno e tudo fica mais triste, não concorda? – você indagava.
- Sim, deve ser por isso...
- Você sabe por que elas nascem e crescem?
- Não imagino um motivo consistente o bastante, diga-me o porquê.
- Para fazerem sombra quando queremos ler um livro ou desenhar sentados na grama. Caso contrário, não teríamos conforto algum em momentos de prazer.
E todos riam, talvez pensando o quanto você fosse bobo e insignificante diante dos pensamentos profundos e científicos dos homens, e você, mais uma vez, não entendia as risadas ecoantes, muito acima da sua cabecinha genial.
- O que é isso?
- É a lua.
- Lua?
- Sim, não vê bem?
- Hahahaha... Faltam as crateras, não?
- Como assim?
- Crateras são formações rochosas na superfície lunar e você não as desenhou aqui.
- “Formações rochosas”...? – e você pensava como existiriam essas tais “formações” que o homem disse: “Mas é lisa toda a vida, como pode? É só olhar no céu, à noite!” e se questionava mais e mais. Você se questionou tanto que se esqueceu até do amargo do jiló e acabou comendo, sem querer, e achou tudo isso muito natural; daí você também se desfez das explicações, que eu preciso dizer, eram mais sólidas e simples que outras, e se deteve apenas às teorias sobre como nascem e crescem as plantas e porque as folhas caem no inverno e no deserto, o porquê das folhas serem verdes, e descobriu a clorofila, oxigênio, o gás carbônico, os fótons. Viveu, também, as amizades, as paixões, as provações e a solidão. Tornou-se finalmente um adulto e foi trabalhar de terno e gravata, comprou carro, namorou, casou e teve filhos, deu-lhes nomes bíblicos e riu dos desenhos de luas, explicações sobre botânica e os obrigou a comerem jiló amargo. Finalmente os criou e fez questionarem as próprias verdades, crescendo, assim como você.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Alguma coisa
Sim, tem alguma coisa em você que... Que me deixa boquiaberta, mesmo estando parado. Parece uma força magnética entre o seu cheiro e os meus olhos e é uma sensação estranha, como quando você fica perto de mais de alguém e acaba se sentindo atraído por aquela pessoa, mas é sem querer.
Fico com vergonha, às vezes, e sinto que você sabe o que causa em mim, que sabe quando eu te olho em estado de hipnose, ou disfarço vigiando pelo canto do olho. Nessas horas, acredite, atrás de você se forma um quadro em preto e branco e todas as cores se concentram em você, unicamente em você.
Não, não... Não vou te dizer que os pássaros cantam e o Sol brilha mais quando você acorda comigo, isso não tem imaginação, explicação, adjetivação pra te definir de manhã cedo, com os cabelos emaranhados e cílios longos, sonolento; digo mais: parece-me até que você também ama, mas assim, calado, descompromissado, sedutor, do seu jeito de “amar-sem-querer” e beber o café em frente a janela da sala, deixando os cabelos castanhos voarem no vento.
E quando você chega fadigado e se esparrama na cama, levanta os olhos e diz “oi”, sorrindo meio de lado – o meu sorriso predileto – como se o dia tivesse sido uma imensa brincadeira de correr – mas, ainda sorrindo? E eu nunca consigo responder, simplesmente não dá pra responder; é só um momento e eu não posso estragar a pintura formada em minha frente, estragar comigo, não... Impossível! Daí acontece que você quer um abraço: quando os seus braços se encaixam na minha cintura e, de fato, nos abraçamos, uma imagem esculpida em mármore se forma em minha mente, como se eu e você tivéssemos sido lapidados um no corpo do outro, uma espécie de obra de arte da perfeição, bem no meio da rua, da sala, do quarto, em qualquer lugar.
Se existe alguma hora de ausência sua, o dia passa mais rápido, com o tempo conspirando para mais um abraço apertado ou um aconchego do seu hálito e voz. Sem você por perto eu me torno humana novamente, um animal como todos os outros na Terra, um “pingüim procurando o parceiro certo”... E eu morro de saudade, como morro! Aliás, não morro só de saudade quando você não está, quando você não se encontra a um centímetro de mim: morro com você, retendo todas as energias para alguma coisa, algo perfeito, algo sobrenatural, magnético... Você.
Fico com vergonha, às vezes, e sinto que você sabe o que causa em mim, que sabe quando eu te olho em estado de hipnose, ou disfarço vigiando pelo canto do olho. Nessas horas, acredite, atrás de você se forma um quadro em preto e branco e todas as cores se concentram em você, unicamente em você.
Não, não... Não vou te dizer que os pássaros cantam e o Sol brilha mais quando você acorda comigo, isso não tem imaginação, explicação, adjetivação pra te definir de manhã cedo, com os cabelos emaranhados e cílios longos, sonolento; digo mais: parece-me até que você também ama, mas assim, calado, descompromissado, sedutor, do seu jeito de “amar-sem-querer” e beber o café em frente a janela da sala, deixando os cabelos castanhos voarem no vento.
E quando você chega fadigado e se esparrama na cama, levanta os olhos e diz “oi”, sorrindo meio de lado – o meu sorriso predileto – como se o dia tivesse sido uma imensa brincadeira de correr – mas, ainda sorrindo? E eu nunca consigo responder, simplesmente não dá pra responder; é só um momento e eu não posso estragar a pintura formada em minha frente, estragar comigo, não... Impossível! Daí acontece que você quer um abraço: quando os seus braços se encaixam na minha cintura e, de fato, nos abraçamos, uma imagem esculpida em mármore se forma em minha mente, como se eu e você tivéssemos sido lapidados um no corpo do outro, uma espécie de obra de arte da perfeição, bem no meio da rua, da sala, do quarto, em qualquer lugar.
Se existe alguma hora de ausência sua, o dia passa mais rápido, com o tempo conspirando para mais um abraço apertado ou um aconchego do seu hálito e voz. Sem você por perto eu me torno humana novamente, um animal como todos os outros na Terra, um “pingüim procurando o parceiro certo”... E eu morro de saudade, como morro! Aliás, não morro só de saudade quando você não está, quando você não se encontra a um centímetro de mim: morro com você, retendo todas as energias para alguma coisa, algo perfeito, algo sobrenatural, magnético... Você.
domingo, 5 de julho de 2009
As estrelas
Em um céu negro com falhas cintilantes e sorridentes, Vênus pousou o olhar faiscante de ódio em uma de suas maiores inimigas. Entre suas acompanhantes, encontrava-se a mais perfeita esfera, platinada, imóvel em sua delicadeza, enorme em beleza, emitindo uma luz convidativa, com olhos negros enevoados, expostos entre cílios longos e iluminados, pele alva e brilhante, que acomodava lábios pálidos e convidativos: a Lua.
Da Terra, o homem, ser pelo qual a deusa e o astro se enamoraram, observava petrificado a esfera prata de formas femininas no teto escuro. Cada minuto passou em horas escorregadias e breves segundos para aquele homem, como rápidos amigos que se despediam com “adeus” de cada faísca branca, pontas pálidas, guardiãs da beleza iluminada com face esférica e fina, que sempre parecia falecida em sepulcro de despedida matinal.
Vênus, em ato de egoísmo e ciúme, desceu até o homem e lhe ofereceu todo o amor que ele queria ter, só que esse amor seria de Vênus, alguém que oferecia abraços e beijos, amores reais, pele e carne para desfrutar além da vida terrena. O homem, hipnotizado com os olhos lacrimejados e sedutores no céu, não deu ouvidos às promessas da deusa, apenas sentou-se no chão arenoso da praia e contemplou o choro de soluços silenciosos da Lua, chamativa em convites frios e tentadores. A deusa, percebendo a paixão entre os dois, lançou aos homens uma maldição: qualquer pessoa que se apaixonasse pela Lua, morreria.
O astro, em compaixão para com os seus amantes, os reúne todas as noites, falecidos e apaixonados, brilhantes ao seu redor; a Lua, namorada dos seres amaldiçoados, os transformou em eternas e sempre veneradas companhias, e as denominou de Estrelas.
----------------------------------------------------
Gente, ganhei mais selos! o/
Prometo que os coloco aqui amanhã e agradeço, mais uma vez, à mais uma amiga blogueira, Rah Belloti do blog Essêcia por ter me presentiado com os selos e pra todo mundo que vem comentar aqui no "Hop", é bom saber que existe gente que gosta de escrever como eu e que tem blogs legais.
Da Terra, o homem, ser pelo qual a deusa e o astro se enamoraram, observava petrificado a esfera prata de formas femininas no teto escuro. Cada minuto passou em horas escorregadias e breves segundos para aquele homem, como rápidos amigos que se despediam com “adeus” de cada faísca branca, pontas pálidas, guardiãs da beleza iluminada com face esférica e fina, que sempre parecia falecida em sepulcro de despedida matinal.
Vênus, em ato de egoísmo e ciúme, desceu até o homem e lhe ofereceu todo o amor que ele queria ter, só que esse amor seria de Vênus, alguém que oferecia abraços e beijos, amores reais, pele e carne para desfrutar além da vida terrena. O homem, hipnotizado com os olhos lacrimejados e sedutores no céu, não deu ouvidos às promessas da deusa, apenas sentou-se no chão arenoso da praia e contemplou o choro de soluços silenciosos da Lua, chamativa em convites frios e tentadores. A deusa, percebendo a paixão entre os dois, lançou aos homens uma maldição: qualquer pessoa que se apaixonasse pela Lua, morreria.
O astro, em compaixão para com os seus amantes, os reúne todas as noites, falecidos e apaixonados, brilhantes ao seu redor; a Lua, namorada dos seres amaldiçoados, os transformou em eternas e sempre veneradas companhias, e as denominou de Estrelas.
----------------------------------------------------
Gente, ganhei mais selos! o/
Prometo que os coloco aqui amanhã e agradeço, mais uma vez, à mais uma amiga blogueira, Rah Belloti do blog Essêcia por ter me presentiado com os selos e pra todo mundo que vem comentar aqui no "Hop", é bom saber que existe gente que gosta de escrever como eu e que tem blogs legais.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Ser estranho
Um ser estranho me olhou outra manhã no espelho do banheiro e no vidro do box. Quando sentei em frente ao computador, esse tal “Ser” sorriu de orelha a orelha para mim, como se... Como se eu fosse a pessoa mais simpática da face da Terra, coisa que qualquer um pode lhe garantir que eu não sou.
Ser Estranho insistiu o dia inteiro com o sorriso plenamente feliz em qualquer superfície espelhada próxima a mim: toda vez que olhava, o sorriso estrondosamente largo e brilhante acendia uma lâmpada no lugar, como se fosse uma idéia nova, música, rima bem feita ou como se eu houvesse acertado uma questão de matemática.
O mais engraçado foi quando eu estava comendo salada no almoço: Ser Estranho simplesmente deu uma dentada farta num hamburger enorme e depois um gole satisfeito num copo de 700 ml de refrigerante, bem em frente a mim, no espelho atrás do balcão da lanchonete. A alface espetada no meu garfo tentou me dizer que eu era mais feliz não consumindo carboidratos inúteis. Ser Estranho estava molhando as batatas fritas no molho do sanduíche e eu tentando colocar o tomatinho escorregadio no meu garfo. Desde daí, Ser Estranho fez coisas que eu normalmente não faria, mas adoraria fazer.
Mais tarde, passei em frente a uma loja de vestidos para noivas. Parei como de costume, e observei o terceiro vestido, da esquerda para a direita. Era bem provável que fosse o mais barato, mas era o mais bonito a meu ver... Adivinhe: Ser Estranho apareceu bem ao lado do vestido, experimentou e depois o tirou aos rasgos do corpo, arrancando os botões com os dentes e jogando uma tiara de cristais no chão. No final da cena apontou a loja que ficava do outro lado da rua: um sex shop.
Finalmente havia chegado a noite, e eu tomado a decisão de cobrir todos os espelhos e retirar objetos de vidro de qualquer lugar que a minha vista alcançasse, caso contrario, eu dormiria com Ser Estranho me atormentando para sair e passar a noite inteira bebendo ou nadando nua na piscina do prédio, argumentando com caretas para a aula que eu teria no dia seguinte - terça-feira.
Ser Estranho insistiu o dia inteiro com o sorriso plenamente feliz em qualquer superfície espelhada próxima a mim: toda vez que olhava, o sorriso estrondosamente largo e brilhante acendia uma lâmpada no lugar, como se fosse uma idéia nova, música, rima bem feita ou como se eu houvesse acertado uma questão de matemática.
O mais engraçado foi quando eu estava comendo salada no almoço: Ser Estranho simplesmente deu uma dentada farta num hamburger enorme e depois um gole satisfeito num copo de 700 ml de refrigerante, bem em frente a mim, no espelho atrás do balcão da lanchonete. A alface espetada no meu garfo tentou me dizer que eu era mais feliz não consumindo carboidratos inúteis. Ser Estranho estava molhando as batatas fritas no molho do sanduíche e eu tentando colocar o tomatinho escorregadio no meu garfo. Desde daí, Ser Estranho fez coisas que eu normalmente não faria, mas adoraria fazer.
Mais tarde, passei em frente a uma loja de vestidos para noivas. Parei como de costume, e observei o terceiro vestido, da esquerda para a direita. Era bem provável que fosse o mais barato, mas era o mais bonito a meu ver... Adivinhe: Ser Estranho apareceu bem ao lado do vestido, experimentou e depois o tirou aos rasgos do corpo, arrancando os botões com os dentes e jogando uma tiara de cristais no chão. No final da cena apontou a loja que ficava do outro lado da rua: um sex shop.
Finalmente havia chegado a noite, e eu tomado a decisão de cobrir todos os espelhos e retirar objetos de vidro de qualquer lugar que a minha vista alcançasse, caso contrario, eu dormiria com Ser Estranho me atormentando para sair e passar a noite inteira bebendo ou nadando nua na piscina do prédio, argumentando com caretas para a aula que eu teria no dia seguinte - terça-feira.
domingo, 21 de junho de 2009
Quando Sofia Morrer
Quando Sofia morrer, o céu não será mais azul e as flores perderão os perfumes, a grama do quintal será queimada e as nuvens cairão em tempestades.
Quando Sofia morrer, os lençóis brancos da cama de casal ficarão encardidos, as cortinas estarão sempre fechadas e a lareira sempre acesa. O gato pulará da janela, procurando comida, o peixe saltará o aquário, procurando companhia; o vizinho cumulará pedidos de “xícaras de açúcar”, o carteiro terá um endereço a menos, os amigos terão um amigo a menos; o piano desafinará, as cordas de violão se arrebentarão.
Quando Sofia morrer, as lagartas não produzirão casulos, as borboletas entrarão em extinção; as luas vão explodir em cacos de vasos quebrados, os pássaros perderão as suas penas; a manhã nascerá deformada e o crepúsculo será cinza; a imensidão do universo há de parar de crescer e o oxigênio se tornará lenda.
Quando Sofia morrer, as páginas do seu livro serão arrancadas pelo tempo e a tinta do papel escorrerá a terra; as luzes se apagarão em perfeita sincronia, e os cegos perderão as esperanças.
Quando Sofia morrer, o enterro não acontecerá, pois a terra há de se recusar em receber a beleza ainda viva; o Sol não se permitirá mais acordar e as estrelas explodirão em arrependimentos tardios, em desculpas mal dadas, em desejos não atendidos, em sonhos perdidos.
Se Sofia ainda tivesse coragem de voltar atrás, me tomaria o punhal e diria que me amava, mesmo entendendo a deficiência do meu amor. Contudo, Sofia insiste que eu não sou sua vida, que é tudo mentira. Se, para ela, a vida não foi feita para nós dois, a vida, então, será somente para mim.
Quando Sofia morrer, os lençóis brancos da cama de casal ficarão encardidos, as cortinas estarão sempre fechadas e a lareira sempre acesa. O gato pulará da janela, procurando comida, o peixe saltará o aquário, procurando companhia; o vizinho cumulará pedidos de “xícaras de açúcar”, o carteiro terá um endereço a menos, os amigos terão um amigo a menos; o piano desafinará, as cordas de violão se arrebentarão.
Quando Sofia morrer, as lagartas não produzirão casulos, as borboletas entrarão em extinção; as luas vão explodir em cacos de vasos quebrados, os pássaros perderão as suas penas; a manhã nascerá deformada e o crepúsculo será cinza; a imensidão do universo há de parar de crescer e o oxigênio se tornará lenda.
Quando Sofia morrer, as páginas do seu livro serão arrancadas pelo tempo e a tinta do papel escorrerá a terra; as luzes se apagarão em perfeita sincronia, e os cegos perderão as esperanças.
Quando Sofia morrer, o enterro não acontecerá, pois a terra há de se recusar em receber a beleza ainda viva; o Sol não se permitirá mais acordar e as estrelas explodirão em arrependimentos tardios, em desculpas mal dadas, em desejos não atendidos, em sonhos perdidos.
Se Sofia ainda tivesse coragem de voltar atrás, me tomaria o punhal e diria que me amava, mesmo entendendo a deficiência do meu amor. Contudo, Sofia insiste que eu não sou sua vida, que é tudo mentira. Se, para ela, a vida não foi feita para nós dois, a vida, então, será somente para mim.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Um prêmio e uma resolução
Sim, eu demorei pra voltar e escrever alguma coisa com qualidade no pobre blog que você está visitando, mas, mesmo com a minha ausência, ganhei um selo (e “mudei o visual” do Hoppípolla)!

Agradeço a querida blogueira Mogui (http://olhode-vidro.blogspot.com), por ter se lembrado de mim na hora de selecionar os 7 blogs merecedores do prêmio.
"Este selo é para blogs que 'demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos leitores'".
Regras:
1 - O premiado deverá expor o selo no seu blog e atribuí-lo a sete outros blogs que considere merecedores.
2 - O premiado deverá responder à seguinte pergunta: O que significa para si ser um Homo sapiens?
Bem, primeiro que, infelizmente, o homo sapiens não pode significar liberdade, porque é escravo das suas criações (discorda?), contudo, representa a inteligência e o poder de mudança que nenhum outro animal possui. O homo sapiens vai da guerra ao amor, é o "ser contradição" da natureza.
"E os indicados são":
1. Papel de Sêmica (http://papeldesemica.blogspot.com/)
2. Vida Alternativa (http://alternativa-vida.blogspot.com/)
3. Histórias, Contos e Confissões da Madrugada (http://confissoesdamadrugada.blogspot.com/)
4. Uma coisa puxa a outra (http://umacoisapuxaaoutra.blogspot.com/)
5. Temporario (http://tempo-horario.blogspot.com/)
6. CastanhaZ na Parede (http://castanhaznaparede.blogspot.com/)
7. e, mesmo que ele não saiba como carregar imagens no blogger, Blue’s Spot (http://bluezspot.blogspot.com/)
Ah, e só porquê eu fiquei tanto tempo sem postar:
Centrípeta
Acabo de lembrar como era antes: eu chorava e tinha o leite; eu chorava e tinha um copo d’água; chorava, chorava... E sempre tinha o que eu queria bem na minha frente antes do ponteiro dos segundos se mexer.
Então chegou um dia que eu chorei e ninguém se importou com isso, ninguém mesmo. Fiquei lá, deitada, feito uma criança, esperneando e gritando e... Nada. Comecei a gritar mais forte, espernear com mais força, contudo, não houve atenção da parte de ninguém: parei. Olhei, com os meus olhos vermelhos e rosto inchado, ao meu redor e todos, sem exceção, estavam sorrindo, conversando, gargalhando – nem sequer me olhando, nem pelo canto do olho.
Não havia uma pessoa naquele recinto que não estivesse feliz ou atarefada com alguma coisa, elas simplesmente não davam atenção ao meu problema, não pararam tudo o que faziam para “buscar o meu copo d’água”, cada uma buscava o seu. E eu, ali, de pernas e braços cruzados, ainda esperando que alguém buscasse água pra mim.
Jéssica Modinne, agora, além de ser “maior de idade”, quer ser adulta.

Agradeço a querida blogueira Mogui (http://olhode-vidro.blogspot.com), por ter se lembrado de mim na hora de selecionar os 7 blogs merecedores do prêmio.
"Este selo é para blogs que 'demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos leitores'".
Regras:
1 - O premiado deverá expor o selo no seu blog e atribuí-lo a sete outros blogs que considere merecedores.
2 - O premiado deverá responder à seguinte pergunta: O que significa para si ser um Homo sapiens?
Bem, primeiro que, infelizmente, o homo sapiens não pode significar liberdade, porque é escravo das suas criações (discorda?), contudo, representa a inteligência e o poder de mudança que nenhum outro animal possui. O homo sapiens vai da guerra ao amor, é o "ser contradição" da natureza.
"E os indicados são":
1. Papel de Sêmica (http://papeldesemica.blogspot.com/)
2. Vida Alternativa (http://alternativa-vida.blogspot.com/)
3. Histórias, Contos e Confissões da Madrugada (http://confissoesdamadrugada.blogspot.com/)
4. Uma coisa puxa a outra (http://umacoisapuxaaoutra.blogspot.com/)
5. Temporario (http://tempo-horario.blogspot.com/)
6. CastanhaZ na Parede (http://castanhaznaparede.blogspot.com/)
7. e, mesmo que ele não saiba como carregar imagens no blogger, Blue’s Spot (http://bluezspot.blogspot.com/)
Ah, e só porquê eu fiquei tanto tempo sem postar:
Centrípeta
Acabo de lembrar como era antes: eu chorava e tinha o leite; eu chorava e tinha um copo d’água; chorava, chorava... E sempre tinha o que eu queria bem na minha frente antes do ponteiro dos segundos se mexer.
Então chegou um dia que eu chorei e ninguém se importou com isso, ninguém mesmo. Fiquei lá, deitada, feito uma criança, esperneando e gritando e... Nada. Comecei a gritar mais forte, espernear com mais força, contudo, não houve atenção da parte de ninguém: parei. Olhei, com os meus olhos vermelhos e rosto inchado, ao meu redor e todos, sem exceção, estavam sorrindo, conversando, gargalhando – nem sequer me olhando, nem pelo canto do olho.
Não havia uma pessoa naquele recinto que não estivesse feliz ou atarefada com alguma coisa, elas simplesmente não davam atenção ao meu problema, não pararam tudo o que faziam para “buscar o meu copo d’água”, cada uma buscava o seu. E eu, ali, de pernas e braços cruzados, ainda esperando que alguém buscasse água pra mim.
Jéssica Modinne, agora, além de ser “maior de idade”, quer ser adulta.
sábado, 13 de junho de 2009
Metros de páginas vazias
Esvaziaram-se todas as páginas que você me ajudou a escrever. Parei de perceber o tom diferenciado do azul no céu, o som flutuante dos seus passos, do meu coração pulsando quando sentia o seu hálito ou a sinfonia que tocava quando você dizia “bom dia”.
Ainda vasculho as montanhas de papeis todos os dias, completamente brancas, limpas, sem um rabisco sequer, tentando achar alguma palavra ou uma sílaba qualquer que me mostre um engano, algo que passou despercebido, um aviso prévio do nosso fim, mas não há nada, tudo branco.
Se eu já tentei jogar fora? Joguei, aliás, tentei, mas voltei a percebê-las na manhã seguinte empilhadas numa montanha branca e ainda maior que a anterior, então desisti de jogá-las pela janela e na lata de lixo. Resolvi pedir ajuda e colocar outra pessoa do lado direito da cama, com a medíocre esperança delas (folhas em branco) simplesmente saírem voando porta a fora por não agüentarem um substituto, um novo escritor, mas as páginas se multiplicaram e tomaram o lugar do meu ajudante na cama.
Houve um dia em que o encontrei na rua, na verdade, te vi de longe: primeiro não havia ninguém por perto, digo, perto de você. Nesse momento surgiu-me o ímpeto de correr e me jogar nos seus braços, mas veja só você, eu dei um único passo e ela surgiu, simplesmente materializou-se atrás de você e executou o meu plano perfeito: saiu correndo para se jogar nos seus braços... Você a acolheu num abraço apertado e, aposto, que tão macio quanto o que você costumava me dar, e olhou fundo no rosto juvenil e redondo da moça que obteve sucesso em sue plano roubado. Nesse momento eu tive duas escolhas: ou abaixava a cabeça para a xícara de café gelado ou via a verdade tornando-se realidade.
Quando retornei ao apartamento, percebi a difícil e eterna tarefa de remover todas as páginas que você me deixou e, ao abrir a bolsa que usara aquela tarde, retirei mais uma folha em branco grampeada a uma fotografia. Sentei-me na mesa e observei a imagem fotografada de vocês dois, sem beijo, sem abraço, apenas de mãos dadas, mas sorridentes e felizes enquanto entravam no carro. O papel limpo e novo que eu havia recolhido da bolsa não se juntou à pilha enorme no canto da sala, ao contrário: peguei a caneta preta de dentro da bolsa e o risquei, nada aconteceu, risquei novamente e o papel manteve-se estático, reto e rabiscado na minha frente, enquanto que os papeis empilhados viravam pó e voavam janela a fora.
Iniciei, naquele mesmo papel, com um título, o que poderia ser a nova montanha de papeis desorganizados do meu apartamento. Só me faltava um co-autor, pronto para me ajudar a escrever mais metros e metros de páginas e, quem sabe, jamais vazias.
Ainda vasculho as montanhas de papeis todos os dias, completamente brancas, limpas, sem um rabisco sequer, tentando achar alguma palavra ou uma sílaba qualquer que me mostre um engano, algo que passou despercebido, um aviso prévio do nosso fim, mas não há nada, tudo branco.
Se eu já tentei jogar fora? Joguei, aliás, tentei, mas voltei a percebê-las na manhã seguinte empilhadas numa montanha branca e ainda maior que a anterior, então desisti de jogá-las pela janela e na lata de lixo. Resolvi pedir ajuda e colocar outra pessoa do lado direito da cama, com a medíocre esperança delas (folhas em branco) simplesmente saírem voando porta a fora por não agüentarem um substituto, um novo escritor, mas as páginas se multiplicaram e tomaram o lugar do meu ajudante na cama.
Houve um dia em que o encontrei na rua, na verdade, te vi de longe: primeiro não havia ninguém por perto, digo, perto de você. Nesse momento surgiu-me o ímpeto de correr e me jogar nos seus braços, mas veja só você, eu dei um único passo e ela surgiu, simplesmente materializou-se atrás de você e executou o meu plano perfeito: saiu correndo para se jogar nos seus braços... Você a acolheu num abraço apertado e, aposto, que tão macio quanto o que você costumava me dar, e olhou fundo no rosto juvenil e redondo da moça que obteve sucesso em sue plano roubado. Nesse momento eu tive duas escolhas: ou abaixava a cabeça para a xícara de café gelado ou via a verdade tornando-se realidade.
Quando retornei ao apartamento, percebi a difícil e eterna tarefa de remover todas as páginas que você me deixou e, ao abrir a bolsa que usara aquela tarde, retirei mais uma folha em branco grampeada a uma fotografia. Sentei-me na mesa e observei a imagem fotografada de vocês dois, sem beijo, sem abraço, apenas de mãos dadas, mas sorridentes e felizes enquanto entravam no carro. O papel limpo e novo que eu havia recolhido da bolsa não se juntou à pilha enorme no canto da sala, ao contrário: peguei a caneta preta de dentro da bolsa e o risquei, nada aconteceu, risquei novamente e o papel manteve-se estático, reto e rabiscado na minha frente, enquanto que os papeis empilhados viravam pó e voavam janela a fora.
Iniciei, naquele mesmo papel, com um título, o que poderia ser a nova montanha de papeis desorganizados do meu apartamento. Só me faltava um co-autor, pronto para me ajudar a escrever mais metros e metros de páginas e, quem sabe, jamais vazias.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Vontade
Essa vontade de querer ter vontade sempre me assombrou, eu diria que me assombrou antes mesmo d’eu nascer. Lembro-me bem quando a minha mãe me contou o porquê de precisar fazer uma cesárea para eu poder nascer: a data do meu nascimento – a prevista – já havia passado há muito tempo e ela sempre argumenta que queria ficar ali dentro mais um pouco, que eu era medrosa. Por isso eu penso que, desde daí, eu quero tudo não querendo nada.
“O objetivo tá alí, bem pertinho” ela (mãe) me diz, “só falta mais um pouco, força!”, mas escutar a palavra “força” não me dá mais força; correr atrás do tal objetivo ainda faz sentido – sempre fez - mas os métodos, técnicas e macetes não servem mais: são insuficientes. Talvez o espírito da coisa não seja fazer por aí, talvez exista um ponto-centro para todos esses momentos de desistência que envolve todo o Objetivo (sonho, meta, etc.), talvez me falte encontrar o princípio, a minha arché particular, que eu perdi no caminho entre o outro e este plano (Céu, Terra, Inferno, que seja, mas eu perdi).
E a sensação? Nada simples: imagine-se necessitando de algo, que você precise exatamente disso para ter um bom dia (pode ser algo simples, como água). Agora, imagine-se vivendo sem isso (água) por muitos dias, muitas semanas. É lógico que você viveria com sede até morrer por causa disso. Pois eu me sinto assim, porém, não vivo isso em semanas, vivo em meses, anos, uma vida inteira; vivo em um deserto que insiste em me enganar da existência de um oásis muito próximo em qualquer dos seus cantos. Devo chegar ao oásis sem água e, por já estar sedenta e cansada, “engatinhar” na areia áspera e quente, com um sol a rir e debochar do meu esforço.
O pior de tudo é o “talvez”: “talvez” você consiga, “talvez” chova, “talvez” exista um oásis. Além desses tem o meu “talvez” latejante, pulsante, perguntando todas as manhãs: “Queres continuar?”. Apesar de tudo, jamais responderei “não”, pois o sol rirá mais de mim, a areia queimará mais as palmas das minhas mãos e o oásis desaparecerá, como um sonho interrompido ao se acordar.
“O objetivo tá alí, bem pertinho” ela (mãe) me diz, “só falta mais um pouco, força!”, mas escutar a palavra “força” não me dá mais força; correr atrás do tal objetivo ainda faz sentido – sempre fez - mas os métodos, técnicas e macetes não servem mais: são insuficientes. Talvez o espírito da coisa não seja fazer por aí, talvez exista um ponto-centro para todos esses momentos de desistência que envolve todo o Objetivo (sonho, meta, etc.), talvez me falte encontrar o princípio, a minha arché particular, que eu perdi no caminho entre o outro e este plano (Céu, Terra, Inferno, que seja, mas eu perdi).
E a sensação? Nada simples: imagine-se necessitando de algo, que você precise exatamente disso para ter um bom dia (pode ser algo simples, como água). Agora, imagine-se vivendo sem isso (água) por muitos dias, muitas semanas. É lógico que você viveria com sede até morrer por causa disso. Pois eu me sinto assim, porém, não vivo isso em semanas, vivo em meses, anos, uma vida inteira; vivo em um deserto que insiste em me enganar da existência de um oásis muito próximo em qualquer dos seus cantos. Devo chegar ao oásis sem água e, por já estar sedenta e cansada, “engatinhar” na areia áspera e quente, com um sol a rir e debochar do meu esforço.
O pior de tudo é o “talvez”: “talvez” você consiga, “talvez” chova, “talvez” exista um oásis. Além desses tem o meu “talvez” latejante, pulsante, perguntando todas as manhãs: “Queres continuar?”. Apesar de tudo, jamais responderei “não”, pois o sol rirá mais de mim, a areia queimará mais as palmas das minhas mãos e o oásis desaparecerá, como um sonho interrompido ao se acordar.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
A fuga de Júlio
Ao acordar, Júlio espreguiçou-se e levantou bocejando sem cobrir a boca, deu de cara com o muro negro de todos os dias. Ao seu redor, ninguém havia acordado ainda, assim, Júlio resolveu contemplar as sombras que se moviam no seu muro escuro e sem vida.
Quando levantou a perna direita, dando um passo para trás, ouviu o som das correntes de ferro avisando-lhe que estava se distanciando da sua posição, que estava se distanciando do muro e que isso poderia ser muito perigoso. Ao invés de retornar os pés às pegadas deixadas por ele mesmo no chão arenoso, decidiu que daria mais um passo para trás e, dessa vez, as correntes reclamaram mais alto ainda.
Júlio andou mais alguns passos para trás, chegando perto de uma saída e percebeu que, aos poucos, a luz aumentava e que as sombras ficavam cada vez mais distantes dos seus olhos, a luz era muito forte, mal podia levantar seus olhos a altura do céu. Olhou então para o chão e percebeu o brilho de uma pequena chave na areia: era a liberdade, um novo mundo.
Ao se desprender das correntes enferrujadas, Júlio se sentiu desprotegido, como se seus conceitos já não servissem para o Novo Mundo em que se encontrava, conceitos pequenos, obsoletos, triviais. Caminhou por muito tempo sob a forte luz do Sol, observando, primeiramente, o chão de areia branca, depois a água azulada que quebrava as ondas em seus pés, depois o horizonte avermelhado do entardecer, para, finalmente, poder levantar a os olhos até o Sol (a luz que jamais havia encarado antes) que antes segava-lhe pela magnitude do seu brilho.
Júlio, vendo quantas idéias novas haviam no Sol, maravilhou-se e lamentou-se em perceber tudo que tinha encontrado fora da sua caverna e que tantos ainda estavam presos lá. Sem demora, retornou ao seu lugar de origem, com esperança de poder mostrar o Mundo para aqueles que apenas contemplavam as sombras no fundo da caverna.
Chegando à caverna, Júlio imediatamente pôs-se a contar sobre a areia, a água, o horizonte e o Sol e como era belo o Mundo, que tudo continha perfeição e novas idéias. Os homens sentados, ao escutarem a estória de Júlio, desconfiaram da sanidade de seu amigo: olharam-se todos e levantaram, ficando a altura de seu amigo, perguntando-lhe se estava bem, se não era um mal sonho que havia lhe acometido na noite anterior, mas Júlio negou sorridente, insistindo do que se passara naquele dia. Os homens não tiveram dúvida: atiraram-lhe à morte, sem hesitar e desconfiar do que seu amigo haviam contado, sem duvidar do um mundo real.
Quando levantou a perna direita, dando um passo para trás, ouviu o som das correntes de ferro avisando-lhe que estava se distanciando da sua posição, que estava se distanciando do muro e que isso poderia ser muito perigoso. Ao invés de retornar os pés às pegadas deixadas por ele mesmo no chão arenoso, decidiu que daria mais um passo para trás e, dessa vez, as correntes reclamaram mais alto ainda.
Júlio andou mais alguns passos para trás, chegando perto de uma saída e percebeu que, aos poucos, a luz aumentava e que as sombras ficavam cada vez mais distantes dos seus olhos, a luz era muito forte, mal podia levantar seus olhos a altura do céu. Olhou então para o chão e percebeu o brilho de uma pequena chave na areia: era a liberdade, um novo mundo.
Ao se desprender das correntes enferrujadas, Júlio se sentiu desprotegido, como se seus conceitos já não servissem para o Novo Mundo em que se encontrava, conceitos pequenos, obsoletos, triviais. Caminhou por muito tempo sob a forte luz do Sol, observando, primeiramente, o chão de areia branca, depois a água azulada que quebrava as ondas em seus pés, depois o horizonte avermelhado do entardecer, para, finalmente, poder levantar a os olhos até o Sol (a luz que jamais havia encarado antes) que antes segava-lhe pela magnitude do seu brilho.
Júlio, vendo quantas idéias novas haviam no Sol, maravilhou-se e lamentou-se em perceber tudo que tinha encontrado fora da sua caverna e que tantos ainda estavam presos lá. Sem demora, retornou ao seu lugar de origem, com esperança de poder mostrar o Mundo para aqueles que apenas contemplavam as sombras no fundo da caverna.
Chegando à caverna, Júlio imediatamente pôs-se a contar sobre a areia, a água, o horizonte e o Sol e como era belo o Mundo, que tudo continha perfeição e novas idéias. Os homens sentados, ao escutarem a estória de Júlio, desconfiaram da sanidade de seu amigo: olharam-se todos e levantaram, ficando a altura de seu amigo, perguntando-lhe se estava bem, se não era um mal sonho que havia lhe acometido na noite anterior, mas Júlio negou sorridente, insistindo do que se passara naquele dia. Os homens não tiveram dúvida: atiraram-lhe à morte, sem hesitar e desconfiar do que seu amigo haviam contado, sem duvidar do um mundo real.
domingo, 10 de maio de 2009
Pesadelo
Corro no campo verde
O amarelo do sol me alegra
E branco das nuvens se dissolvendo em luz.
Então, diante de mim, te enxergo
Por um segundo longe e muito próximo
Tu em todas as cores!
No final, quase te tocando
Perto da linha de chegada.
Enquanto eu me aproximo
O verde do prado murcha em mortas cores,
o amarelo do sol se põe em prantos turvos
e o branco das nuvens, outrora luzes
despede-se com um adeus perpétuo.
Tu, porém, ainda sorri:
sorri alegre, satisfeito, indiferente...
Não me vira às costas
e continua de braços estendidos.
Mas o tempo fica lento:
um passo vira uma eternidade em câmera lenta.
Tu te afastas na minha maratona
quanto mais perto, mais longe.
Curva os braços, ainda sorrindo,
mas sorri debochado
Vira as costas e caminha lentamente (mas, rápido).
Eu correndo um passo
Por hora, por dia, por nunca mais.
............................................................
Poeminha antigo, escrito em 2006.
O amarelo do sol me alegra
E branco das nuvens se dissolvendo em luz.
Então, diante de mim, te enxergo
Por um segundo longe e muito próximo
Tu em todas as cores!
No final, quase te tocando
Perto da linha de chegada.
Enquanto eu me aproximo
O verde do prado murcha em mortas cores,
o amarelo do sol se põe em prantos turvos
e o branco das nuvens, outrora luzes
despede-se com um adeus perpétuo.
Tu, porém, ainda sorri:
sorri alegre, satisfeito, indiferente...
Não me vira às costas
e continua de braços estendidos.
Mas o tempo fica lento:
um passo vira uma eternidade em câmera lenta.
Tu te afastas na minha maratona
quanto mais perto, mais longe.
Curva os braços, ainda sorrindo,
mas sorri debochado
Vira as costas e caminha lentamente (mas, rápido).
Eu correndo um passo
Por hora, por dia, por nunca mais.
............................................................
Poeminha antigo, escrito em 2006.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
A paranóia
Ele entra no carro, “Mas que cheiro é esse?” eu pensei; ele me dá um beijinho no rosto e diz:
- Oi amor! Você tá bonita hoje.
- Há! Obrigada – Hum... Elogio.
- Então, como foi o seu dia?
- Foi...
- Sabe o que a gente podia fazer hoje? Podia jantar fora, nunca mais a gente foi naquele restaurante... Como é mesmo o nome? Aquele japonês...
“Ahhh... Por que ele tá me tratando tão bem? O que aconteceu?”.Lembrei-me imediatamente de uma conversa que tive com uma amiga, numa época em que o marido tinha um caso com “a secretária do escritório”. Ela me dizia que não desconfiava do marido porque ele a tratava tão bem que não criava suspeitas. Flávio também trabalhava num escritório e estava me convidando pra jantar fora em plena segunda-feira, depois de um dia cheio de trabalho.
- Então, vamos ao restaurante? – Flávio sorriu, talvez tentando encobrir algum “crime extraconjugal" que havia cometido antes de entrar no meu carro.
“Deve ser aquela ruiva! Como é mesmo o nome? Ah, sim: Carla!”
- Amor, você tá bem? Tá com uma cara...
- Eu? – se eu admitisse o porquê da minha expressão ele ia negar tudo, claro.
- É, você. Tá com os olhos apertados, como se não conseguisse enxergar a placa do carro da frente. Cadê os seus óculos? Tá de lente?
- Isso, hoje eu resolvi usar as lentes.
- Então porque tá forçando tanto a vista?
- Meu grau aumentou, lembra?
- Não, não, você não me falou nada. Por que você não me falou?
- Pois é... – mas que cínico! Ele mentindo e ainda cobra que eu diga a verdade!
Ele continuou me olhando, esperando a resposta. Eu falei:
- Então, eu não te contei nada porque...
- Por que, Ana?
- Porque... – uma resposta, rápido.
- “Porqueee”...
- Eu...
- Sabe o que eu acho? Você tá mentindo pra mim.
- Eu? Mas de onde você tirou que é mentira?
- Você mentiu pra mim. Ana, você tem outro? Ah, já sei quem é! É aquele seu chefe! Aquele metido do Sérgio! Não acredito nisso...!
- Eu não... Espera aí, e como você me explica esse perfume doce seu, hein? Não vai me dizer que agora você usa perfume feminino, né?! Vai me dizer que não é daquela tal de “Dona Carla”, a sua secretária?
- Mas com que direito você vem reclamar do meu perfume! É você que tá me traindo, esqueceu?!
- Não esque... O quê? É você!
- Não, é você!
....................................................................
Gente, eu sei que não tenho respondido aos comentários que vocês fazem, mas é que o tempo tá curto. Assim que tiver mais tempo, prometo responder todos que faltam, ok?
Tchau, tchau...
- Oi amor! Você tá bonita hoje.
- Há! Obrigada – Hum... Elogio.
- Então, como foi o seu dia?
- Foi...
- Sabe o que a gente podia fazer hoje? Podia jantar fora, nunca mais a gente foi naquele restaurante... Como é mesmo o nome? Aquele japonês...
“Ahhh... Por que ele tá me tratando tão bem? O que aconteceu?”.Lembrei-me imediatamente de uma conversa que tive com uma amiga, numa época em que o marido tinha um caso com “a secretária do escritório”. Ela me dizia que não desconfiava do marido porque ele a tratava tão bem que não criava suspeitas. Flávio também trabalhava num escritório e estava me convidando pra jantar fora em plena segunda-feira, depois de um dia cheio de trabalho.
- Então, vamos ao restaurante? – Flávio sorriu, talvez tentando encobrir algum “crime extraconjugal" que havia cometido antes de entrar no meu carro.
“Deve ser aquela ruiva! Como é mesmo o nome? Ah, sim: Carla!”
- Amor, você tá bem? Tá com uma cara...
- Eu? – se eu admitisse o porquê da minha expressão ele ia negar tudo, claro.
- É, você. Tá com os olhos apertados, como se não conseguisse enxergar a placa do carro da frente. Cadê os seus óculos? Tá de lente?
- Isso, hoje eu resolvi usar as lentes.
- Então porque tá forçando tanto a vista?
- Meu grau aumentou, lembra?
- Não, não, você não me falou nada. Por que você não me falou?
- Pois é... – mas que cínico! Ele mentindo e ainda cobra que eu diga a verdade!
Ele continuou me olhando, esperando a resposta. Eu falei:
- Então, eu não te contei nada porque...
- Por que, Ana?
- Porque... – uma resposta, rápido.
- “Porqueee”...
- Eu...
- Sabe o que eu acho? Você tá mentindo pra mim.
- Eu? Mas de onde você tirou que é mentira?
- Você mentiu pra mim. Ana, você tem outro? Ah, já sei quem é! É aquele seu chefe! Aquele metido do Sérgio! Não acredito nisso...!
- Eu não... Espera aí, e como você me explica esse perfume doce seu, hein? Não vai me dizer que agora você usa perfume feminino, né?! Vai me dizer que não é daquela tal de “Dona Carla”, a sua secretária?
- Mas com que direito você vem reclamar do meu perfume! É você que tá me traindo, esqueceu?!
- Não esque... O quê? É você!
- Não, é você!
....................................................................
Gente, eu sei que não tenho respondido aos comentários que vocês fazem, mas é que o tempo tá curto. Assim que tiver mais tempo, prometo responder todos que faltam, ok?
Tchau, tchau...
terça-feira, 21 de abril de 2009
Teoria(s)
Ainda agora eu tava lendo um post do Blue’s Spot, blog de um amigo meu. O post falava sobre Tao (pra quem não conhece, “joga no Google”). No momento em que eu li o tal post, confesso que fiquei confusa (porque sou meio lenta), mas depois, como é de costume, “obedeci as regras” e refleti isso:
Tao nada mais é do que um Caminho, pelo menos assim está escrito no Wikipédia, mas que é Absoluto. Não vou classificar como religião, não é justo. Digamos que Tao é Tao, não pode ser religião porque é algo maior que somente espiritualidade, ele transcende esse plano que se apóia somente em divindades e fé. Tao é um estado, não físico, não espiritual, algo inexplicável, mas, acredito eu, sensível.
Um dia desses, conversando com esse mesmo amigo, estávamos discutindo sobre Deus (sim, sobre Ele mesmo), o que ele significava para cada um de nós. Se eu não me engano, esse meu amigo (o dono do Blue’s Spot), me falou que Deus é maior que todos nós e, que de alguma for, nós é que estamos dentro dele, nós é que fazemos parte dele. Não me lembro de ter argumentado alguma opinião minha, mas aqui está: não, eu não acho que Deus (ou força superiror, ou Alá, ou Buda, ou qualquer outra divindade) esteja acima de nós e acredito nisso profundamente. Como você explicaria tantos nomes diferentes para um só Deus (inclusive “Deus” - mas enfim, não é essa a pergunta ou lugar onde que quero chegar com esse post; ainda não terminei a minha “opinião escrita” )?
Ele, não está “acima” de nós, está dentro de cada um de nós, ele nos completa e equilibra entre os nossos defeitos e virtudes, faz parte da mente e do corpo, do espírito e do físico, do externo e interno. Faz parte de tudo, mas somente porque ele está dentro de nós.
O meu Deus me compreende e me castiga, mas isso não passa de uma reflexão interior de “mim mesma”. Ele é a minha consciência, por isso, também não deixa de ser o caminho certo, assim como também existe o errado.
Então, você me pergunta: “E quando alguém mata outra pessoa, onde estaria esse Deus-Consciência?”. Bem, alguém mataria outra pessoa com que consciência? Ela/Ele não existe nessa pessoa, pois ela não escuta a si mesma, o que está óbvio, contudo, distante; apenas as vontades estão falando e a pessoa só poderá escutar isso. Não pense que Deus-Consciência não está lá, porque está e sempre vai estar (pois o homem se diferencia dos outros animais pela inteligência que tem), mas o problema é a pessoa conseguir seguir a inteligência e não as vontades.
Então Deus existe, ele está dentro de mim, reunindo em equilíbrio a mente(inteligência) e o coração (vontades). E para você, onde está?
_____________________________________________
Vamos deixar alguns pontos claros aqui: 1) Tao foi uma inspiração para o post e nada mais; 2) nesse post, eu não condeno a existência de Deus em momento algum, assim como não questiono a existência Dele. Também peço desculpa se ofendi a fé de alguém, mas blogs foram feitos para se publicar o que se pensa, independente da opinião dos leitores (não estou certa?). Se você, em algum trecho do texto, se sentiu ofendido, sinta-se a vontade para comentar sobre isso, mas não esqueça de ser educado, pois nenhum de nós somos obrigados a ler o que não queremos.
Tao nada mais é do que um Caminho, pelo menos assim está escrito no Wikipédia, mas que é Absoluto. Não vou classificar como religião, não é justo. Digamos que Tao é Tao, não pode ser religião porque é algo maior que somente espiritualidade, ele transcende esse plano que se apóia somente em divindades e fé. Tao é um estado, não físico, não espiritual, algo inexplicável, mas, acredito eu, sensível.
Um dia desses, conversando com esse mesmo amigo, estávamos discutindo sobre Deus (sim, sobre Ele mesmo), o que ele significava para cada um de nós. Se eu não me engano, esse meu amigo (o dono do Blue’s Spot), me falou que Deus é maior que todos nós e, que de alguma for, nós é que estamos dentro dele, nós é que fazemos parte dele. Não me lembro de ter argumentado alguma opinião minha, mas aqui está: não, eu não acho que Deus (ou força superiror, ou Alá, ou Buda, ou qualquer outra divindade) esteja acima de nós e acredito nisso profundamente. Como você explicaria tantos nomes diferentes para um só Deus (inclusive “Deus” - mas enfim, não é essa a pergunta ou lugar onde que quero chegar com esse post; ainda não terminei a minha “opinião escrita” )?
Ele, não está “acima” de nós, está dentro de cada um de nós, ele nos completa e equilibra entre os nossos defeitos e virtudes, faz parte da mente e do corpo, do espírito e do físico, do externo e interno. Faz parte de tudo, mas somente porque ele está dentro de nós.
O meu Deus me compreende e me castiga, mas isso não passa de uma reflexão interior de “mim mesma”. Ele é a minha consciência, por isso, também não deixa de ser o caminho certo, assim como também existe o errado.
Então, você me pergunta: “E quando alguém mata outra pessoa, onde estaria esse Deus-Consciência?”. Bem, alguém mataria outra pessoa com que consciência? Ela/Ele não existe nessa pessoa, pois ela não escuta a si mesma, o que está óbvio, contudo, distante; apenas as vontades estão falando e a pessoa só poderá escutar isso. Não pense que Deus-Consciência não está lá, porque está e sempre vai estar (pois o homem se diferencia dos outros animais pela inteligência que tem), mas o problema é a pessoa conseguir seguir a inteligência e não as vontades.
Então Deus existe, ele está dentro de mim, reunindo em equilíbrio a mente(inteligência) e o coração (vontades). E para você, onde está?
_____________________________________________
Vamos deixar alguns pontos claros aqui: 1) Tao foi uma inspiração para o post e nada mais; 2) nesse post, eu não condeno a existência de Deus em momento algum, assim como não questiono a existência Dele. Também peço desculpa se ofendi a fé de alguém, mas blogs foram feitos para se publicar o que se pensa, independente da opinião dos leitores (não estou certa?). Se você, em algum trecho do texto, se sentiu ofendido, sinta-se a vontade para comentar sobre isso, mas não esqueça de ser educado, pois nenhum de nós somos obrigados a ler o que não queremos.
tags:
desabafo,
Deus,
expressão,
inspiração,
significado,
texto
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Tentando entender
Às vezes eu penso como o tempo já não é suficiente, como 24 horas já não completam mais um dia. Talvez isso te mostre o quanto fazes por ti – ou seja, nada – e o quanto fazes “por eles”, que não tem nada a ver contigo, são apenas “pessoas”, “indivíduos”. Digo então que tenho pena de ti – e muita -, pois gastas os teus segundos preciosos com os outros, não fazendo o que queres fazer, não sendo de carne e osso.
E mais que isso, tenho pena de te olhar no espelho! Sim, porque és controlado pelo invisível, obedeces ao sensível, com uma mente fraca e submissa a qualquer ordem.
Então perguntas “E o que te controla?”, mas a resposta não existe, talvez porque ela esteja dentro (profundamente) de mim, onde eu não alcanço mais, ou externa de mais para eu poder enxergar.
Pra ser sincera eu sei (ou penso saber): é uma espécie de força que não é minha, que é “involuntária”. Essa vontade chega a mover as minhas pernas até o trabalho, sem que eu mesma note isso (digo, notasse).
Quando essa força se distrai eu aproveito pra pensar, a força não permite que eu pense: “É perda de tempo!” ela grita, e volta a me castigar, fazendo com que as minhas pernas e mãos trabalhem mais rápido que a minha cabeça, dificultando mais tarde a pulsação dos pensamentos – todos perdidos!
A pior morte não é a física, mas a do ser, da alma. Se for assim, interrompe-se além do cotidiano; interrompe-se o homem na Terra.
...................................................................................
Texto escrito depois de uma aula de filosofia (não tente entender), que, aparentemente, não foi proveitosa.
E mais que isso, tenho pena de te olhar no espelho! Sim, porque és controlado pelo invisível, obedeces ao sensível, com uma mente fraca e submissa a qualquer ordem.
Então perguntas “E o que te controla?”, mas a resposta não existe, talvez porque ela esteja dentro (profundamente) de mim, onde eu não alcanço mais, ou externa de mais para eu poder enxergar.
Pra ser sincera eu sei (ou penso saber): é uma espécie de força que não é minha, que é “involuntária”. Essa vontade chega a mover as minhas pernas até o trabalho, sem que eu mesma note isso (digo, notasse).
Quando essa força se distrai eu aproveito pra pensar, a força não permite que eu pense: “É perda de tempo!” ela grita, e volta a me castigar, fazendo com que as minhas pernas e mãos trabalhem mais rápido que a minha cabeça, dificultando mais tarde a pulsação dos pensamentos – todos perdidos!
A pior morte não é a física, mas a do ser, da alma. Se for assim, interrompe-se além do cotidiano; interrompe-se o homem na Terra.
...................................................................................
Texto escrito depois de uma aula de filosofia (não tente entender), que, aparentemente, não foi proveitosa.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
A saída
Comecei a escutar o poema: o rapaz recitando num palquinho que ao fundo comportava dois músicos, um com violão, que de vez em quando, arriscava um acorde para “ilustrar” as palavras ditas da boca do rapaz.
Iniciou (o rapaz) com palavras que eu desacompanhei distraída com o cartaz atrás dele, que também não me fez sentido algum, cheio de palavras que faziam muito sentido, se você não estivesse na minha cabeça.
As imagens vinham como flashes rápidos e estáticos na minha frente, assim então, senti estranhar aquela sensação incrível, uma perturbação que não devia me perturbar, não naquela hora. Voltei de novo para o rapaz, o cartaz, o violão e me deparei com o espanto deles, aliás, não só deles: cada pessoa do local deveria estar me olhando, as que não estavam boquiabertas, gritavam ao meu redor, chorando por algo chocante, algo chocante em mim.
A mulher que se ajoelhou do meu lado foi empurrada por um careca de olhos arregalados, nada cavalheiro; tentei protestar contra a atitude daquele homem, mas o meu peito ardeu num simples gesto do braço esquerdo. A mulher, amedrontada subiu numa espécie de púlpito e pôs-se a reclamar um médico no local, com uma voz tão aguda que foi o suficiente para o ferimento arder mais ainda. A minha única opção foi fechar os olhos, apertá-los bem forte, pressionar o ferimento e então...
Abri os olhos. Deparei-me com todas aquelas pessoas de novo, mas não estavam sobre mim, pedindo que eu não parasse de falar, para terem certeza de que eu continuaria viva, estavam agora amontoadas no centro do salão, procurando alguma coisa, talvez estivessem ajudando mais alguém que também estava correndo tanto perigo quanto eu; o amontoado se dispersou quando o homem careca, aquele que não havia sido nada cavalheiro, mandou que todos saíssem em ordem dali, que seguissem o caminho para a saída da esquerda:
– Não há mais nada que possamos fazer, só podemos esperar pelos médicos. Saiam, saiam!
Caminhei vagarosamente, cambaleante, até o centro do salão, onde supostamente estaria a outra vítima. O meu espanto foi em ver que não era alguém conhecido ou desconhecido, que vestia um casaquinho azul marinho como o meu e usava os mesmos sapatos que eu havia comprado para a ocasião. Havia um ferimento rubro no peito esquerdo e a vítima já pendia inconsciente no chão, ainda tentando estancar o sangue com a mão direita, o rosto manchado de maquiagem borrada dos olhos também manchou o meu rosto, quando observei o espelho perto do banheiro. Entendi então, que via ali no salão de festas o fim prematuro que me foi proporcionado, concedido sem um pedido de minha parte, sem aviso prévio, nem educação. Sentei-me do meu lado por alguns minutos, me despedi (ainda em choque) e caminhei para a saída mais difícil de todas: a morte.
Iniciou (o rapaz) com palavras que eu desacompanhei distraída com o cartaz atrás dele, que também não me fez sentido algum, cheio de palavras que faziam muito sentido, se você não estivesse na minha cabeça.
As imagens vinham como flashes rápidos e estáticos na minha frente, assim então, senti estranhar aquela sensação incrível, uma perturbação que não devia me perturbar, não naquela hora. Voltei de novo para o rapaz, o cartaz, o violão e me deparei com o espanto deles, aliás, não só deles: cada pessoa do local deveria estar me olhando, as que não estavam boquiabertas, gritavam ao meu redor, chorando por algo chocante, algo chocante em mim.
A mulher que se ajoelhou do meu lado foi empurrada por um careca de olhos arregalados, nada cavalheiro; tentei protestar contra a atitude daquele homem, mas o meu peito ardeu num simples gesto do braço esquerdo. A mulher, amedrontada subiu numa espécie de púlpito e pôs-se a reclamar um médico no local, com uma voz tão aguda que foi o suficiente para o ferimento arder mais ainda. A minha única opção foi fechar os olhos, apertá-los bem forte, pressionar o ferimento e então...
Abri os olhos. Deparei-me com todas aquelas pessoas de novo, mas não estavam sobre mim, pedindo que eu não parasse de falar, para terem certeza de que eu continuaria viva, estavam agora amontoadas no centro do salão, procurando alguma coisa, talvez estivessem ajudando mais alguém que também estava correndo tanto perigo quanto eu; o amontoado se dispersou quando o homem careca, aquele que não havia sido nada cavalheiro, mandou que todos saíssem em ordem dali, que seguissem o caminho para a saída da esquerda:
– Não há mais nada que possamos fazer, só podemos esperar pelos médicos. Saiam, saiam!
Caminhei vagarosamente, cambaleante, até o centro do salão, onde supostamente estaria a outra vítima. O meu espanto foi em ver que não era alguém conhecido ou desconhecido, que vestia um casaquinho azul marinho como o meu e usava os mesmos sapatos que eu havia comprado para a ocasião. Havia um ferimento rubro no peito esquerdo e a vítima já pendia inconsciente no chão, ainda tentando estancar o sangue com a mão direita, o rosto manchado de maquiagem borrada dos olhos também manchou o meu rosto, quando observei o espelho perto do banheiro. Entendi então, que via ali no salão de festas o fim prematuro que me foi proporcionado, concedido sem um pedido de minha parte, sem aviso prévio, nem educação. Sentei-me do meu lado por alguns minutos, me despedi (ainda em choque) e caminhei para a saída mais difícil de todas: a morte.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
O tempo não se inspira
Tic
Bate o segundo nos meus ouvidos surdos de inspiração
Tac
Lápis, papel e linhas se arranjam sem harmonia num pensamento
Tic
Segundos de palavras atravessando o grafite
Tac
Ainda assim, página em branco de mim
Tic
Entrelinhas começam a revelar quem eu sou
Tac
O silêncio pensante no pensamento do próximo traço de letra
Tic
Eu, cheia de pensar quais letras
Tac
Mas as letras atrás de mim.
.............................................................
Ta muito difícil se inspirar ultimamente.
Bate o segundo nos meus ouvidos surdos de inspiração
Tac
Lápis, papel e linhas se arranjam sem harmonia num pensamento
Tic
Segundos de palavras atravessando o grafite
Tac
Ainda assim, página em branco de mim
Tic
Entrelinhas começam a revelar quem eu sou
Tac
O silêncio pensante no pensamento do próximo traço de letra
Tic
Eu, cheia de pensar quais letras
Tac
Mas as letras atrás de mim.
.............................................................
Ta muito difícil se inspirar ultimamente.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Paulina
Paulina entra no banheiro
Paulina acende a luz
Paulina arruma a toalha no gancho
Paulina tira a blusa
Paulina tira as calças
O Espelho olha Paulina
Paulina olha para si
Paulina evitou o Espelho
Paulina tira o sutiã e a calcinha
O Espelho olha Paulina
O Espelho empina o nariz para Paulina
O Espelho ri de Paulina
Paulina chora ao ver Paulina no Espelho.
...........................................
p.s.: pedoem a minha falta de criatividade.
p.s².: selo novo, dado pela Casa do Besouro (visitem que vale a pena).
Paulina acende a luz
Paulina arruma a toalha no gancho
Paulina tira a blusa
Paulina tira as calças
O Espelho olha Paulina
Paulina olha para si
Paulina evitou o Espelho
Paulina tira o sutiã e a calcinha
O Espelho olha Paulina
O Espelho empina o nariz para Paulina
O Espelho ri de Paulina
Paulina chora ao ver Paulina no Espelho.
...........................................
p.s.: pedoem a minha falta de criatividade.
p.s².: selo novo, dado pela Casa do Besouro (visitem que vale a pena).
domingo, 29 de março de 2009
Descrição de domingo
A tarde estava excepcionalmente tranquila: havia uma monotonia adorável na forma como as nuvens atravessavam o céu e o imenso “teto azul” bocejava preguiça para quem se atrevesse a contemplá-lo.
O meu velho par de chinelos massacrava a graminha excessivamente verde e cheirosa do jardim, ao fundo, pude escutar o som das correias de bicicleta a tilintar e latidos frequentes dos cães da rua; estes últimos, provavelmente seguiam as bicicletas.
Depois de alguns longos minutos arrastados pelas nuvens, ergui o copo de refrigerante até a boca, bebi um gole gelado, grande, vagaroso. Abri os olhos ardidos do gole e me acomodei mais ainda na espreguiçadeira do jardim, que me pareceu afagar as costas em um tenro “gesto” de conforto.
Deitado ali, sem pensar muito, pretendi ficar até o pôr-do-sol, esperando pacientemente o quadro móvel do céu mudar completamente de traços, linhas e cores. Somente eu, o par de chinelos velhos e o copo de refrigerante gelado durante o dia todo, durante o domingo todo, na espreguiçadeira quase maternal, escutando os típicos sonsinhos do bairro, que me caiam como música pela tarde toda.
O meu velho par de chinelos massacrava a graminha excessivamente verde e cheirosa do jardim, ao fundo, pude escutar o som das correias de bicicleta a tilintar e latidos frequentes dos cães da rua; estes últimos, provavelmente seguiam as bicicletas.
Depois de alguns longos minutos arrastados pelas nuvens, ergui o copo de refrigerante até a boca, bebi um gole gelado, grande, vagaroso. Abri os olhos ardidos do gole e me acomodei mais ainda na espreguiçadeira do jardim, que me pareceu afagar as costas em um tenro “gesto” de conforto.
Deitado ali, sem pensar muito, pretendi ficar até o pôr-do-sol, esperando pacientemente o quadro móvel do céu mudar completamente de traços, linhas e cores. Somente eu, o par de chinelos velhos e o copo de refrigerante gelado durante o dia todo, durante o domingo todo, na espreguiçadeira quase maternal, escutando os típicos sonsinhos do bairro, que me caiam como música pela tarde toda.
Assinar:
Postagens (Atom)
