sábado, 13 de junho de 2009

Metros de páginas vazias

Esvaziaram-se todas as páginas que você me ajudou a escrever. Parei de perceber o tom diferenciado do azul no céu, o som flutuante dos seus passos, do meu coração pulsando quando sentia o seu hálito ou a sinfonia que tocava quando você dizia “bom dia”.
Ainda vasculho as montanhas de papeis todos os dias, completamente brancas, limpas, sem um rabisco sequer, tentando achar alguma palavra ou uma sílaba qualquer que me mostre um engano, algo que passou despercebido, um aviso prévio do nosso fim, mas não há nada, tudo branco.
Se eu já tentei jogar fora? Joguei, aliás, tentei, mas voltei a percebê-las na manhã seguinte empilhadas numa montanha branca e ainda maior que a anterior, então desisti de jogá-las pela janela e na lata de lixo. Resolvi pedir ajuda e colocar outra pessoa do lado direito da cama, com a medíocre esperança delas (folhas em branco) simplesmente saírem voando porta a fora por não agüentarem um substituto, um novo escritor, mas as páginas se multiplicaram e tomaram o lugar do meu ajudante na cama.
Houve um dia em que o encontrei na rua, na verdade, te vi de longe: primeiro não havia ninguém por perto, digo, perto de você. Nesse momento surgiu-me o ímpeto de correr e me jogar nos seus braços, mas veja só você, eu dei um único passo e ela surgiu, simplesmente materializou-se atrás de você e executou o meu plano perfeito: saiu correndo para se jogar nos seus braços... Você a acolheu num abraço apertado e, aposto, que tão macio quanto o que você costumava me dar, e olhou fundo no rosto juvenil e redondo da moça que obteve sucesso em sue plano roubado. Nesse momento eu tive duas escolhas: ou abaixava a cabeça para a xícara de café gelado ou via a verdade tornando-se realidade.
Quando retornei ao apartamento, percebi a difícil e eterna tarefa de remover todas as páginas que você me deixou e, ao abrir a bolsa que usara aquela tarde, retirei mais uma folha em branco grampeada a uma fotografia. Sentei-me na mesa e observei a imagem fotografada de vocês dois, sem beijo, sem abraço, apenas de mãos dadas, mas sorridentes e felizes enquanto entravam no carro. O papel limpo e novo que eu havia recolhido da bolsa não se juntou à pilha enorme no canto da sala, ao contrário: peguei a caneta preta de dentro da bolsa e o risquei, nada aconteceu, risquei novamente e o papel manteve-se estático, reto e rabiscado na minha frente, enquanto que os papeis empilhados viravam pó e voavam janela a fora.
Iniciei, naquele mesmo papel, com um título, o que poderia ser a nova montanha de papeis desorganizados do meu apartamento. Só me faltava um co-autor, pronto para me ajudar a escrever mais metros e metros de páginas e, quem sabe, jamais vazias.

23 comentários:

Rafael Max disse...

Emocionei!

Anônimo disse...

Nossa você escreve muito bem, amei o texto s2

Arthur Alves disse...

Gostei pra caramba... Seu modo de escrever me deixa muito preso ao texto, emocionado.

Abraços

Anônimo disse...

Simplismente Show

Odair Almeida disse...

Ótimo post, continue assim. Retribuindo, gostei do seu blog. Obrigado por postar e visitar o meu.

Débora Borsatti disse...

Muito bom, bem emocionante, prendeu minha atenção até o final...me identifiquei!
Parabéns pelo seu blog!

Débora Borsatti disse...

Muito bom, também tenho uns papéis em brancos que insistem em si fazer prensentes na minha casa...rs
Ótimo texto, bem emocionante!
Parabéns pelo blog!

Andreia disse...

Menina, como você escreve bem! Nem acredito que tenha apenas 18 anos. É uma jovem prodígio. Também gosto de escrever contos, navegar nas palavras e me deixar ser levadas por ela.
Abraços!

Maria Chuteira disse...

nos prende ate o final, mto legal.
parabéns!!!

bjos..


http://maria-chuteira.blogspot.com/

Euzer Lopes disse...

Metros e metros de páginas vazias para um coração que insiste em ler a mesma história.

Triste

Jean B. disse...

Adorei a história, principalmente a metáfora q vc utilizou, ficou muito bom mesmo.

Anônimo disse...

Nossa, é isso que me agrada nos blogs [já tive outros], a gente sempre encontra alguém que compartilha os mesmos sentimentos/confusões rsrs

Obrigada pelo comentário lá, e vou sgeuir também!

Khelson Onlythat disse...

Jessica, tenho estado meio sumido do mundo blogistico... e enfim, meio sumido da vida em si
me desculpa
em relação a sua escrita, eu vejo que vc está cada vez melhor, e seus textos cada vez mais interessantes, espero que vc continue sempre progredindo, cada vez mais e mais, espero tbm que não percamos contato, como tem ocorrio ultimamente e mais uma vez... FELIZ ANIVERSÁRIO XD
até mais

P.s As vezes penso que vc entra em um estado mental diferente pra escrever seus textos XD dps te explico pq...

\o/

Neuro-Musical disse...

Nossa. Fiquei emocionado... Você escreve muito bem viu? Você conseguiu me envolver profundamente na história e olha que isso é dificil. Pude ler ai o que sempre soube e sempre saberei: O fim de um relacionamento é muito doloroso para a pessoa que ame, seja de qual maneira for.

Inez disse...

Caramba quando você escreveu esse texto devia estar em estado de graça, é muito bom.
Parabéns!

Dra Silvana Resaffi disse...

PARABÉNS!!!!!!Adoro pessoas inteligentes e bem humoradas.Adorei seu Blog.Leve, descontraido e com um bom conteudo!
Convido vc a visitar o meu Blog TB
http://www.depoisdodiva.blogspot.com/
Sou psicologa e vou adorar ler seus comentarios por lá.
Bjs e boa semana!
Sil

TATA CRISTINA disse...

Adorei seu texto, muito bom!!!
Vc escreve livros?^^hehehe
Beijos

ainda mais estórias disse...

Que txto mais completo.
Além de ser leve, traz formas de escrita que o torna envolvente.
Adoro textos assim, que trazem por fundo uma crítica, uma sugestão, um sentimento oculto.
Muito bom..

http://aindamaisestorias.blogspot.com


e participe dessa promoção

http://blogcafeexpresso.blogspot.com/2009/06/quer-ganhar-o-livro-guantanamo-boy.html

Caio Coletti disse...

Uau, muito bem escrito! Você tem criatividade, tem estilo e tem emoção no que escreve, eu gosto disso! É realmente um tema que dá pano para manga, as decepções do amor... páginas em branco, metáfora muito boa!

Aliás, obrigado pelo link, vou passar a seguir seu blog e vou te linkar tbm... pensando nisso, aliás, keria te convidar pra escrever alguma para o Conto do Galo, estaria honrado em publicar...

Abraço

Camila Zanforlin disse...

Olha,
Faço jornalismo e na faculdade não vejo tanta gente escrevendo bem assim como você! Parabéns mesmo! Texto profundo e muito bonito!!

Bjos!

Anônimo disse...

Nossa que louco esse texto principalmente essa parte.

Houve um dia em que o encontrei na rua, na verdade, te vi de longe: primeiro não havia ninguém por perto, digo, perto de você. Nesse momento surgiu-me o ímpeto de correr e me jogar nos seus braços, mas veja só você, eu dei um único passo e ela surgiu.

Doooooga abortou o plano

BLOGdoRUBINHO
www.blogdorubinho.cjb.net

Letícia disse...

Adorei a forma como você se expressa. Sua linguagem toma forma, suas palavras são como contornos de algo que se materializou em minha mente, ao ler esse texto. Adorei seu blog, vejo que tem prática e gosta de escrever. Continue assim!

Um beijo.
http://omundonumabolha.blogspot.com

Anônimo disse...

Lindo, lindo, lindo!!! Puxa, emoção *mode on*... haha
Seu texto, embora denso, é tão leve, que eu poderia ler um livro inteiro seu e, por mais que eu absorvesse muitas informações, no final me pareceria um livro com várias e várias páginas vazias ;)
Bem bacana, e aproveitando... posso linkar também?

http://musica-urbana.blogspot.com

bjsss