- Talita, acorda!
Era sete da manhã e Talita ainda estava deitada de bruços, com o braço direito pendurado na lateral da cama.
- Menina, levanta agora!
“Mas que diabos?!” pensou Talita, abrindo os olhos em fendas muito finas, deixando a visão muito embaçada para que percebesse a luz do sol entrando na janela.
- Levanta! – gritou a mãe, balançando Talita na cama.
- Ai, ai! Mas o que aconteceu?
- Você está atrasada pra escola, falta meia-hora pra aula começar!
- Só meia?! – perguntou a menina olhando o relógio em formato de gato na parede. Os olhos do gato iam para a esquerda e para a direita, enquanto Talita se lembrava da prova que tinha que fazer ainda no primeiro horário: matemática – Meu deus!
- Vai escovar logo os dentes, corre!
Talita saltou da cama, calçou os chinelos e correu para o banheiro. Escovou os dentes ao mesmo tempo em que tentava, de uma forma fantástica, prender os cabelos num rabo de cavalo alto. Voltou correndo para o quarto, já se trocando no meio do caminho, tentando vestir a camisa do uniforme. O irmão, que sempre arranjava um motivo diferente para faltar aula, apenas olhava a irmã, debochando do atraso da garota e vangloriando-se por estar com “muita dor de barriga para ir à aula”.
Talita finalmente pegou a mochila e as chaves da casa e saiu em alvoroço pela rua, correu durante três quarteirões, sem problema nenhum, até tropeçar nos próprios pés.
- Se eu pelo menos não faltasse às aulas de educação física... – lamentou a menina.
Continuou correndo, mesmo que mancando, pela rua, quando avistou o ônibus escolar na parada do próximo quarteirão. Gritou para que parasse, mas o motorista provavelmente não escutou, ou simplesmente não quis se atrasar para levar o ônibus de volta ao estacionamento da escola. Dessa forma, Talita foi obrigada a andar mais um quarteirão para pegar outro ônibus que não fosse escolar.
Ao entrar no ônibus já havia perdido as esperanças de fazer a prova pela qual havia sacrificado o final de semana para poder se recuperar das notas baixas da última avaliação.
- Falta cinqüenta centavos. – resmungou o cobrador.
- Cinqüenta, cinqüenta... – Talita procurou a carteira e lembrou-se de ter deixado na mesa da cozinha enquanto tomou meio copo de leite antes de sair de casa naquela manhã.
- Rápido!– gritou alguém na fila para pagar a viagem de ônibus.
Talita olhou para o cobrador gordo e bigodudo, que não parecia nem um pouco feliz aquela manhã. A menina lamentou um “não tenho, moço” e tentou passar pela lateral da fila, quando o cobrador disse para que ficasse pela frente, mas que levantasse quando entrasse algum idoso ou mulher grávida.
A viagem seguiu normal, até uma rua engarrafada, a duas quadras da escola. Enquanto o sol subia no céu e o calor aumentava com a quantidade de passageiros, Talita tentava estudar qualquer coisa, mas só tentava, sem sucesso algum. Decidiu descer depois de alguns minutos e seguir o resto do caminho correndo. Na sua maratona, alguns cães resolveram segui-la (talvez imaginassem que estava brincando com eles). O fedor dos cães era insuportável e Talita decidiu correr mais rápido para que o cheiro não impregnasse o uniforme. Tropeçou mais uma vez, sujando e ralando os joelhos no asfalto, dando tempo dos animais alcançá-la e se esfregarem das suas roupas. Chegou, finalmente, no portão do colégio e tentou entrar, dando “Bom dia, Dona Amália” para a inspetora da escola. Imediatamente a mulher se pôs na frente da garota:
- Você realmente pensa que vai entrar assim, não é?
- Assim?
- Sim.
- Assim como?
- Como? Bem, para começar, você está descabelada, está apenas com o lado esquerdo do par de meias, seus joelhos estão ralados e ainda está com o pijama por baixo do uniforme. – falou a mulher, num tom desprezível, olhando por cima dos óculos – e que fedor é esse?
Talita deu uma boa olhada para as suas roupas e percebeu a estampa de coelhinhos do pijama por baixo da camisa branca mal abotoada do uniforme. Levou as mãos aos cabelos, tentando amenizar o arrepiado que o ventou deixou nos seus cachos.
Nesse exato momento, Eduardo, o menino dito o mais educado, inteligente, popular, enfim, do colégio apareceu no portão, estava chegando também.
- Bom dia, Dona Amália. – sorriu Eduardo. Talita suspirou sem perceber.
- Bom dia Senhor Eduardo, pode entrar.
- Talita? É você? – o menino perguntou, observando a garota dos pés à cabeça, deixando o rosto da menina vermelho.
- É, sou eu... – falou Talita, abobalhada.
- Hum, que cheiro é ess...? Bom, pelo menos dá tempo de você voltar pra casa e se arrumar de novo, falta meia hora pra aula começar.
- O quê?
- É, falta meia hora pra aula começar, se você cor...
- Meia hora? Mas o meu relógio...
- Deve estar adiantado, você chegou cedo hoje.
- Se eu fosse você, seguiria os conselhos do seu amigo. Volte pra casa, troque o seu uniforme e, se tiver sorte, ainda chega para fazer a sua prova. – intrometeu-se Dona Amália.
- Meia hora?! - Talita gritou, acordando todo o bairro.
domingo, 24 de maio de 2009
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18 comentários:
Nossa!!Coitada da Talita! Isso nunca aconteceu aomigo (de chegar num lugar de pijama), mas...XD
Belo post! :D
Beijos
Você pediu para eu passar aqui... Bom, aqui estou eu.
Gostei do texto, ri aos caminhões!!
Apesar de ser grande, a estrutura não atrapalha a leitura (nem dá pregiça =]).
Vou te seguir também!
Até a próxima!
Abraço.
mto legal seu texto
espero que pretenda ser escritor, viu?
Seu texto me fez lembrar dos bons tempos que trabalhei em escola, era uma cena comum alunos chegando atrasados, esbaforidos de tanto correr pra não perder prova.
Nunc ninguém chegou com mau cheiro e nem de pijama.
MEIA HORA? kkkkk...
Me diverti lendo isso.
Teve uma vez que fui às pressas para o colégio, chegando lá lembrei que havia esquecido alguma coisa...
Mas só notei isso quando avistei a bela professora de espanhol, Ana Néri... neste momento ocorreu de eu perceber - e todo o colégio - no meio do pátio de 50x30m lotado que eu estava sem cueca...
(Há 3 anos)
kkkkk...
Gostei do seu blog, abraços!
coitadinha, muito engraçado o final. Quanto a minha historia, aquela terminou to decidindo qual das outras histórias q eu ja postei pego para trabalhar um fim mais elaborado
http://confissoesdamadrugada.blogspot.com/
hauhauahauahauhauaahua... que sacanagem.... isso nunca aconteceu cmg... mas sempre chego atrasada na aula... e já perdi prova por causa disso.. que trash!
Muito legal!, sua criatividade é enorme parabéns! Quando vai ter outra obre?? rsrs, estou esperando
Beijos
Acesse: http://www.bebecamota.blogspot.com/
Coitaaaaaaaaada da Talita!!!
UHEUEHEUHEUHEUHE
www.conto-um-conto.blogspot.com
Um dia de cão. Ou como um dia postei: "hellday"
auhsuashuas
Isso deu saudades do tempo de estagiária.
Como sempre, a qualidade lá em cima Modinne.
Oi Jess,
Pensei que tinha postado antes, não apareceu. Achei muito envolvente, entrelaçado e li em um fôlego só!!! Meus parabéns. Bjos. E já me senti uma " Talita ", rs.
hahahahaha
mancada isso!
Huum.. blog de visu novo?
Adorei viu? beijinhos
Legal.
Realmente gostei do texto.
Dá uma olhadinha que talvez você se interesse.
SemTosquices procura.
http://semtosquices.blogspot.com/2009/05/sem-tosquices-procura.html
texto envolvente... não dá pra parar de ler [não é o meu tipo de blog, mas gostei]
http://baldepipoca.blogspot.com [ se der entra lá]
Ou a culpa foi do horário de verão ou então a mãe dela é como os meus pais. Pode ser 10 da manhã e se eu estiver dormindo, resmungarão: vai dar meio-dia!
adoreeeeeei o texto!
quem nunca chegou ou muito atrasado achando que era cedo.. ou muito cedo achando que estava atrasado?
hehehe!
bom, tem selo pra você lá no blog :D
se quizer, passa lá!
beijos :*
putz...já acordei mais cedo por engano, mas não cheguei a sair de casa!
ótimo texto, prende a atenção, uma leitura que flui, bem agradável.
Um abraço
Muiiiiiiito bom.
Me lembrou a estrutura de um filme do scorcese chamado Depois de Horas.
Escreva mais contos.
E mude o negro de fundo.
Seus leitores agradecem :)
http://martonolympio.blogspot.com/
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