quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Gwenhwyfar

Os teus olhos não me atrevo a contemplar. Que eles me sigam, contudo, onde quer que eu vá, para que assim eu tenha poder sobre as paisagens que eles contemplarão; que eu esteja neles e os cegue do resto do mundo para sempre.
Que eu sempre esteja nos campos verdes dos montes, em meio às lavandas primaveris e macieiras, que eu seja a folha seca e vermelha do outono aconchegante quando chegares das campanhas, que eu me embranqueça na neve pálida e tímida do inverno quando estiveres longe com os teus cavaleiros, em guerra, e que a minha face esteja refletida nos riachos e lagos quando o verão te der calor.
E que não te conformes em estar perto de mim, que isto seja pouco para ti, pois o é para mim. Que sintas o meu perfume em qualquer flor que cheires e que escutes minha voz em qualquer momento de agonia, ou melhor, que a minha voz te cause agonia, que eu seja a tua eterna dor da falta que te faço todo tempo, e que eu te cause torpor apenas pela saudade que tens de me ver. Que eu substitua o ar que tu respiras, a comida que te alimenta, o sangue que te corre as veias; que eu te seja um sonho inalcançável, a busca egoísta, uma inveja que jamais poderá ser reprimida do teu peito.
Pois te trago no meu coração, preenchido perfeitamente pelo furor dos teus olhos, boca e pele, empapuçado pelo timbre da tua voz e pela dor incomparável de te amar, com meus batimentos alterados pelo arrepio da tua presença. Guardo-te da minha razão, tão vil qualidade humana, para que não seja um joguete de impulsos, porque te quero com tanta possessão quanto ofereço inteiramente meus sentidos, minha honra, meus medos, meus amores, paixões, loucuras e existência.
Torna-te o fiel servo dos teus impulsos e não queiras saber das questões das razões humanas, nem políticas do teu senhor Rei, para que não desistas da penúria que é me amar. Não te esqueças que és o meu senhor absoluto e amado insubstituível, sou tua serva, como desejo que sejas para mim.

domingo, 3 de outubro de 2010

Certezas

“É uma agonia estranha olhar. Ver, observar, me deixa presa, incapaz. O que se faz apenas observando algo publicamente observável? O que se faz com as anotações dos movimentos e atitudes físicas que alguém toma? É só para tirar conclusões dúbias?
É uma agonia estranha inferir. Imaginar, concluir pela teoria, me deixa presa, incapaz. O que se faz com a teoria se o homem não cabe nela? O que se faz com a própria opinião, com a subjetividade insistente de um ser humano? Como penetrá-la livre da própria subjetividade, do próprio “eu”?
O que fazemos, senão inferir sobre o que um movimento ou atitude representa? O que fazemos, senão observar, para depois, apenas inferir? O que somos, senão uma simples e clara dependência de todo o conhecimento? O que somos, senão a própria consciência, a própria ciência?
E o valor do conhecimento? Do que vale o meu conhecimento? E o seu? Qual é verdadeiro e por quê? O que é, afinal de contas, a verdade? E quem me garante ser verdade, visto que cada um tem as suas verdades e dúvidas?
E se todo o conhecimento e plausível de dúvida, o que é verdadeiramente comprovado? O que é rigorosamente real, visto que para toda regra há exceção? E, se é assim, o que não se anula? O que não tende a nada?
Se para tudo existe o nada, se para o não existe o sim, se para a regra existe a exceção, e, se para a verdade existe a mentira, por que criar respostas? Por que intermediar a eterna dúvida? E mais, para onde esta dúvida incessante navega, onde irá ancorar?
A certeza é uma mentira tão grande quanto as verdades? [...]”

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Quatro dias

– Acordei entediada. Pareceu que eu já estava presa a ele de alguma forma, que isso é um sonho ruim, que eu inventei isso... Minha culpa. Esqueci que, quanto mais a gente tenta se afastar de uma coisa ruim, mais a gente se aproxima. Ser proibido, ou não, não faz diferença, né? Pode ter sido uma espécie de emboscada feita por mim mesma, inconscientemente, só para depender mais ainda do que eu quero e preciso escutar dele todo dia. Dependência... Foi isso que eu consegui... – Inclinou a cabeça um pouco e riu num tom irônico, debochado. Acendeu o cigarro e, segundos depois, a sala já estar impregnada com o cheiro do fumo. Olhou pela janela as pessoas andando pelas calçadas: a moça que entrava num taxi, uma criança voltando do colégio, o guarda multando um motorista. Depois continuou:
– Tentar fugir e dizer que qualquer pessoa pode substituir não adianta, primeiro porque fugir serve de código para sentir falta depois, e segundo que ninguém pode ser substituído, muito menos ele... Como eu queria substituir pessoas da mesma maneira com a qual eu compro coisas por aí. Este cigarro, por exemplo, vai acabar e eu vou precisar de mais cigarros. Só preciso atravessar a minha rua e pagar para ter de volta a sensação boa que eu tenho quando fumo – tragou mais uma vez, bem devagar. Suspirou como se aquilo fosse necessário para mantê-la viva pelo resto da vida, como se fosse água.
– Talvez eu esteja certa, aliás, eu estou. Quem pode, em sã consciência, acreditar que o passado volta e muda tudo? Quem vai acreditar em mim e, mais ainda, em nós dois? Se eu fujo dessa minha dependência é porque eu tenho medo, tento ignorar que todo mundo, de uma forma ou de outra, merece estar com alguém, que a solidão com a qual a gente já nasce não dura para sempre, nem que a gente queira... Não estar fadada à eterna solidão me assusta tanto quanto as propagandas anti-fumo. É quase como se eu fosse aquele feto abortado ou tivesse dois pulmões negros dentro de mim. É um câncer – olhou por mais alguns minutos o cigarro que já havia apagado e, relutante como uma mãe abortando um filho, o jogou ao cinzeiro.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Outubro

Tirou o cigarro do bolso, acendeu-o e sentou na areia. Beatriz olhava as ondas quebrarem na beira da praia e sentia a água gelada molhar as pontas dos dedos dos seus pés. Ele se perguntou se deveria falar alguma coisa ou só continuar fumando e esperar o sol descer mais no céu. Ela falou, então:
– Por que você demorou?
– Desculpe – ele abaixou a cabeça entre os braços, ainda tentando dizer alguma coisa, gaguejando.
A menina olhou para as ondas novamente, sua expressão atormentada, como quem grita sem dizer uma palavra. Mais uma onda quebrou próxima aos seus pés, porém, desta vez, era Beatriz que estava fria.
O final da tarde nublada de outubro passava devagar sem nenhuma palavra, sem pergunta alguma. Beatriz o fitou por mais alguns segundos, o rapaz decidiu encará-la de volta.
– E se não der certo de novo? O que eu ganho em troca? – ela perguntou, desafiando o rapaz a dar uma boa resposta.
– Você ganha o meu sofrimento – ele respondeu – Mas, e se der certo? Já pensou nessa possibilidade?
– Você já o fez uma vez, não tem motivos para não fazer novamente. Se “der certo”, vou acabar do mesmo jeito e você nunca mais vai se perdoar. Vale à pena pra você?
– Vale à pena se eu puder dizer “te amo” e você responder que me ama de volta.
– Eu nunca vou dizer que o amo e, mesmo que eu diga um dia, vai ser para manter você sob o meu controle, para ter o que eu quero, quando eu quiser.
– Não me importo – e ele imaginou que isso realmente daria certo, não se importaria nem se ela o traísse mil vezes, se ela dissesse adeus mil vezes, ele sempre aceitaria, como um viciado que nunca aprende a lição.
Beatriz, ao contrário do que o rapaz imaginava, não repensou a possibilidade de estarem juntos no futuro. A garota só lembrava os seis meses em que preferia dormir ao invés de escrever, de quando se exilou dos amigos e teve os planos jogados fora. Lembrou, contudo, o que tivera aprendido e o quanto valiosa foi a lição. Sabia que não precisava dele ou de qualquer outra pessoa, a menina não pertencia a ninguém, só a si mesma. Não precisava ter por quem se preocupar, ter quem se preocupasse com ela, senão ela própria; não precisava de ligações no meio da noite, de presentes, de atenção de outra pessoa. Tinha nascido sozinha e todas as experiências ruins que tivera, levando em consideração que esta teria sido a pior, só haviam reforçado mais ainda a coragem de ser independente, coragem esta que o seu coração possuía agora.
Já haviam se passado alguns minutos quando ele percebeu, finalmente, que alguns erros são irreparáveis; “um pedido de desculpa”, pensou o rapaz, “o que mais ela quer?”. A menina se levantou, sacudindo com as mãos a areia que sujara suas pernas, e ele soube, sem que ela desse uma única palavra, sem que ela expressasse algo no rosto, que havia erros tão grandes na vida, tão irrecuperáveis, que um pedido de desculpa, como quem dá uma volta ao passado, só servia para piorar as coisas. Observou Beatriz dirigir-se para a orla, chutando a areia branca e fina da praia. Os cabelos anelados e castanhos arrepiando no vento gelado da estação. Sentiu-se culpado mais uma vez, ou melhor, sentiu-se culpado mais um milhão de vezes, envergonhado pelos anos anteriores.
Ainda que aquele cigarro durasse para sempre, ainda que ele nunca fosse demitido do trabalho, tivesse todo o dinheiro, nunca faltasse comida em casa, sempre tivesse muitos amigos, ou até que os seus pais nunca morressem, nada restaria. Nada, então, restou sem Beatriz.

sábado, 12 de junho de 2010

Let's talk

Eu não consigo colocar no papel o que eu quero. “Não é uma crise de hiato criativo?” talvez você pergunte. É, é uma crise forte. Sabe quando você está acostumado a escrever certas coisas e depois não consegue mais? Pois é, eu não consigo mais escrever sobre o que mais gosto de escrever.
Quando você tem saudade de alguém ou uma decepção, fica difícil inventar uma boa história. Porque você é real, você sente tudo e qualquer coisa, mesmo sem dar um pio. Você não ignora que não conseguiu tal coisa ou alguém, que você vai ter que tentar novamente, que os seus planos não deram certo... E o tempo vai passando e tomando o seu tempo de tentar mudar a sua própria vida.
Cada parágrafo desse texto, por exemplo, está me tomando mais esforço do que os parágrafos dos textos anteriores. Eu estou inclusive com medo de escrever, estou com medo que alguém leia e saiba do que se trata, mas, ao mesmo tempo, eu não quero evitar, necessito sentar-me e refletir com a folha de papel e um café preto.
Isso não é pelo dia dos namorados nem pelo meu aniversário, parece que eles não importam muito; isso aqui é por tudo, é por uma piada e por um “não”, é por 15 minutos de intervalo, é pelo cinema, é pelo halloween, pelo natal, pelo shopping, pelo último dia que a gente se viu. É, também, pelos meses de bloqueio que eu me obriguei ficar.
E eu não tenho saudade, sabia? A distância já se encarregou de me fazer esquecer quem você é e o que você está fazendo agora. Acho que não me interessa mais, nunca foi, nem vai ser da minha conta. Eu já esqueci, obrigada pela ajuda, foi uma solução eficiente. Obrigada por me dar de volta o velho hábito que você tinha tomado de mim.