Os teus olhos não me atrevo a contemplar. Que eles me sigam, contudo, onde quer que eu vá, para que assim eu tenha poder sobre as paisagens que eles contemplarão; que eu esteja neles e os cegue do resto do mundo para sempre.
Que eu sempre esteja nos campos verdes dos montes, em meio às lavandas primaveris e macieiras, que eu seja a folha seca e vermelha do outono aconchegante quando chegares das campanhas, que eu me embranqueça na neve pálida e tímida do inverno quando estiveres longe com os teus cavaleiros, em guerra, e que a minha face esteja refletida nos riachos e lagos quando o verão te der calor.
E que não te conformes em estar perto de mim, que isto seja pouco para ti, pois o é para mim. Que sintas o meu perfume em qualquer flor que cheires e que escutes minha voz em qualquer momento de agonia, ou melhor, que a minha voz te cause agonia, que eu seja a tua eterna dor da falta que te faço todo tempo, e que eu te cause torpor apenas pela saudade que tens de me ver. Que eu substitua o ar que tu respiras, a comida que te alimenta, o sangue que te corre as veias; que eu te seja um sonho inalcançável, a busca egoísta, uma inveja que jamais poderá ser reprimida do teu peito.
Pois te trago no meu coração, preenchido perfeitamente pelo furor dos teus olhos, boca e pele, empapuçado pelo timbre da tua voz e pela dor incomparável de te amar, com meus batimentos alterados pelo arrepio da tua presença. Guardo-te da minha razão, tão vil qualidade humana, para que não seja um joguete de impulsos, porque te quero com tanta possessão quanto ofereço inteiramente meus sentidos, minha honra, meus medos, meus amores, paixões, loucuras e existência.
Torna-te o fiel servo dos teus impulsos e não queiras saber das questões das razões humanas, nem políticas do teu senhor Rei, para que não desistas da penúria que é me amar. Não te esqueças que és o meu senhor absoluto e amado insubstituível, sou tua serva, como desejo que sejas para mim.
