Tirou o cigarro do bolso, acendeu-o e sentou na areia. Beatriz olhava as ondas quebrarem na beira da praia e sentia a água gelada molhar as pontas dos dedos dos seus pés. Ele se perguntou se deveria falar alguma coisa ou só continuar fumando e esperar o sol descer mais no céu. Ela falou, então:
– Por que você demorou?
– Desculpe – ele abaixou a cabeça entre os braços, ainda tentando dizer alguma coisa, gaguejando.
A menina olhou para as ondas novamente, sua expressão atormentada, como quem grita sem dizer uma palavra. Mais uma onda quebrou próxima aos seus pés, porém, desta vez, era Beatriz que estava fria.
O final da tarde nublada de outubro passava devagar sem nenhuma palavra, sem pergunta alguma. Beatriz o fitou por mais alguns segundos, o rapaz decidiu encará-la de volta.
– E se não der certo de novo? O que eu ganho em troca? – ela perguntou, desafiando o rapaz a dar uma boa resposta.
– Você ganha o meu sofrimento – ele respondeu – Mas, e se der certo? Já pensou nessa possibilidade?
– Você já o fez uma vez, não tem motivos para não fazer novamente. Se “der certo”, vou acabar do mesmo jeito e você nunca mais vai se perdoar. Vale à pena pra você?
– Vale à pena se eu puder dizer “te amo” e você responder que me ama de volta.
– Eu nunca vou dizer que o amo e, mesmo que eu diga um dia, vai ser para manter você sob o meu controle, para ter o que eu quero, quando eu quiser.
– Não me importo – e ele imaginou que isso realmente daria certo, não se importaria nem se ela o traísse mil vezes, se ela dissesse adeus mil vezes, ele sempre aceitaria, como um viciado que nunca aprende a lição.
Beatriz, ao contrário do que o rapaz imaginava, não repensou a possibilidade de estarem juntos no futuro. A garota só lembrava os seis meses em que preferia dormir ao invés de escrever, de quando se exilou dos amigos e teve os planos jogados fora. Lembrou, contudo, o que tivera aprendido e o quanto valiosa foi a lição. Sabia que não precisava dele ou de qualquer outra pessoa, a menina não pertencia a ninguém, só a si mesma. Não precisava ter por quem se preocupar, ter quem se preocupasse com ela, senão ela própria; não precisava de ligações no meio da noite, de presentes, de atenção de outra pessoa. Tinha nascido sozinha e todas as experiências ruins que tivera, levando em consideração que esta teria sido a pior, só haviam reforçado mais ainda a coragem de ser independente, coragem esta que o seu coração possuía agora.
Já haviam se passado alguns minutos quando ele percebeu, finalmente, que alguns erros são irreparáveis; “um pedido de desculpa”, pensou o rapaz, “o que mais ela quer?”. A menina se levantou, sacudindo com as mãos a areia que sujara suas pernas, e ele soube, sem que ela desse uma única palavra, sem que ela expressasse algo no rosto, que havia erros tão grandes na vida, tão irrecuperáveis, que um pedido de desculpa, como quem dá uma volta ao passado, só servia para piorar as coisas. Observou Beatriz dirigir-se para a orla, chutando a areia branca e fina da praia. Os cabelos anelados e castanhos arrepiando no vento gelado da estação. Sentiu-se culpado mais uma vez, ou melhor, sentiu-se culpado mais um milhão de vezes, envergonhado pelos anos anteriores.
Ainda que aquele cigarro durasse para sempre, ainda que ele nunca fosse demitido do trabalho, tivesse todo o dinheiro, nunca faltasse comida em casa, sempre tivesse muitos amigos, ou até que os seus pais nunca morressem, nada restaria. Nada, então, restou sem Beatriz.

1 comentários:
Amei esse texto, amei a forma como o escreveu, amei o sentimento contido e expresso em cada ponto e vírgula, amei por inteiro, a ponto de invejar quem o escreveu, admito! Lindo, excelentemente escrito, simplesmente maravilhoso. O tipo de texto que eu gostaria de ter escrito, confesso.
Parabéns!
Postar um comentário