quarta-feira, 21 de julho de 2010

Quatro dias

– Acordei entediada. Pareceu que eu já estava presa a ele de alguma forma, que isso é um sonho ruim, que eu inventei isso... Minha culpa. Esqueci que, quanto mais a gente tenta se afastar de uma coisa ruim, mais a gente se aproxima. Ser proibido, ou não, não faz diferença, né? Pode ter sido uma espécie de emboscada feita por mim mesma, inconscientemente, só para depender mais ainda do que eu quero e preciso escutar dele todo dia. Dependência... Foi isso que eu consegui... – Inclinou a cabeça um pouco e riu num tom irônico, debochado. Acendeu o cigarro e, segundos depois, a sala já estar impregnada com o cheiro do fumo. Olhou pela janela as pessoas andando pelas calçadas: a moça que entrava num taxi, uma criança voltando do colégio, o guarda multando um motorista. Depois continuou:
– Tentar fugir e dizer que qualquer pessoa pode substituir não adianta, primeiro porque fugir serve de código para sentir falta depois, e segundo que ninguém pode ser substituído, muito menos ele... Como eu queria substituir pessoas da mesma maneira com a qual eu compro coisas por aí. Este cigarro, por exemplo, vai acabar e eu vou precisar de mais cigarros. Só preciso atravessar a minha rua e pagar para ter de volta a sensação boa que eu tenho quando fumo – tragou mais uma vez, bem devagar. Suspirou como se aquilo fosse necessário para mantê-la viva pelo resto da vida, como se fosse água.
– Talvez eu esteja certa, aliás, eu estou. Quem pode, em sã consciência, acreditar que o passado volta e muda tudo? Quem vai acreditar em mim e, mais ainda, em nós dois? Se eu fujo dessa minha dependência é porque eu tenho medo, tento ignorar que todo mundo, de uma forma ou de outra, merece estar com alguém, que a solidão com a qual a gente já nasce não dura para sempre, nem que a gente queira... Não estar fadada à eterna solidão me assusta tanto quanto as propagandas anti-fumo. É quase como se eu fosse aquele feto abortado ou tivesse dois pulmões negros dentro de mim. É um câncer – olhou por mais alguns minutos o cigarro que já havia apagado e, relutante como uma mãe abortando um filho, o jogou ao cinzeiro.

3 comentários:

CAMILA de Araujo disse...

Comparar um filho abortado com bituca de cigarro, é bastante ousado. Mas se tratando de precisar de certas e pessoas e dependencia, são os dois. né?

"Como eu queria substituir pessoas da mesma maneira com a qual eu compro coisas por aí. Este cigarro, por exemplo, vai acabar e eu vou precisar de mais cigarros. Só preciso atravessar a minha rua e pagar para ter de volta a sensação boa que eu tenho quando fumo"
Eu, como ex. fumante( exceto nessas boites inebriantes de finais de semana) faço de minhas palavras as suas.

Anônimo disse...

pessoas insubistituives, as vezes, algumas pessoas são substituiveis, são exatamente como cigarros e chocolates... mas depende da pessoa...

Nesse caso do texto, realmente é insusbstituivel

ASS: khelson

Morgana disse...

Seus textos sempre são tão bons que me levam a refletir até DEMAIS. Haha! Seria bom mesmo poder substituir alguém por outras coisas. Substituir uma paixão por algo como "sorvete&chocolates". Mas nada substitui os momentos, a presença que falta, que some de uma hora pra outra...
Enfim! Sigo seu blog desde que ele era o Hoppípolla (antigo) e depois virou o Sopa de Letrinhas e etc, etc.. E você continua escrevendo tão bem quanto antes.
Belo texto.
Beijones!