“É uma agonia estranha olhar. Ver, observar, me deixa presa, incapaz. O que se faz apenas observando algo publicamente observável? O que se faz com as anotações dos movimentos e atitudes físicas que alguém toma? É só para tirar conclusões dúbias?
É uma agonia estranha inferir. Imaginar, concluir pela teoria, me deixa presa, incapaz. O que se faz com a teoria se o homem não cabe nela? O que se faz com a própria opinião, com a subjetividade insistente de um ser humano? Como penetrá-la livre da própria subjetividade, do próprio “eu”?
O que fazemos, senão inferir sobre o que um movimento ou atitude representa? O que fazemos, senão observar, para depois, apenas inferir? O que somos, senão uma simples e clara dependência de todo o conhecimento? O que somos, senão a própria consciência, a própria ciência?
E o valor do conhecimento? Do que vale o meu conhecimento? E o seu? Qual é verdadeiro e por quê? O que é, afinal de contas, a verdade? E quem me garante ser verdade, visto que cada um tem as suas verdades e dúvidas?
E se todo o conhecimento e plausível de dúvida, o que é verdadeiramente comprovado? O que é rigorosamente real, visto que para toda regra há exceção? E, se é assim, o que não se anula? O que não tende a nada?
Se para tudo existe o nada, se para o não existe o sim, se para a regra existe a exceção, e, se para a verdade existe a mentira, por que criar respostas? Por que intermediar a eterna dúvida? E mais, para onde esta dúvida incessante navega, onde irá ancorar?
A certeza é uma mentira tão grande quanto as verdades? [...]”

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