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quinta-feira, 19 de março de 2009

Flashes

Quarta-feira, acordo, me espreguiço, levanto irritada, vou ao banheiro, tomo um banho gelado, escovo os dentes. Volto para o quarto, olho o sapato no chão, viro e abro o guarda-roupa. Escolho a blusa pólo branca e a calça jeans azul, tento decidir entre o tênis branco e o preto, calço o rosa. Arrumo o cabelo. Pego a bolsa, saio de casa, tranco a porta.
Ando pela rua, esbarro em alguém, minha pasta cai no chão, ele se abaixa, pede “desculpa, moça”, me olha, eu me viro e continuo andando. Dobro a esquerda, encontro uma amiga, conversamos sobre inutilidades, me despeço, continuo.
Chego ao escritório, dou “Bom dia, Eduardo!”, ele não me olha, eu me chateio. Vou para o computador, continuo o relatório, paro para uma xícara de café, volto e escrevo mais, paro mais uma xícara, termino um artigo.
Hora do almoço, refeitório cheio, comida a quilo, sento sozinha. Eduardo ri atrás de mim, eu também ri um pouquinho, ele não fala comigo. Cátia chega, senta do meu lado, fala muito, eu finjo escutar tudo, mas ainda escuto Eduardo atrás de mim. Fim da hora do almoço.
Mesa bagunçada, eu solitária, o chefe chama: “Esse é Gabriel, você deve ensinar a ele o que fazer aqui, você treinará o rapaz”, reconheço o rapaz do “esbarro”, dou um sorriso amarelo, acompanho até o seu computador. Aviso o que ele deve fazer, ele me olhando, eu concentrada em voltar ao trabalho, Gabriel me olhando, eu desconcentrada. Eduardo chega, reclama para mim: “Ei! Você não falou comigo hoje!”, Gabriel me analisa, Eduardo solta uma gargalhada.
Minha mesa novamente, computador ligado, pilhas de papéis do lado direito. Eduardo no computador do lado: “Sílvia, você terminou aquele relatório? Preciso disso já, ou o chefe me põe na rua!”, suspiro cansada, volto ao trabalho. Escrevo rápido, minha cabeça reclama de dor, pego a minha xícara, levanto e ando rápido, quase corro, encho a xícara com café, derrubo em Gabriel, Eduardo ri, Cátia vem ajudar. Gabriel me olha, eu olho os olhos do rapaz; eu, Gabriel.
O dia termina, Eduardo vem pegar as pilhas dos relatórios, reclama que eu demorei muito, não agradece. Visto o casaco e pego a pasta e a bolsa, Cátia faz o mesmo com a sua bolsa e o seu casaco, andamos juntas pelo corredor; paro: Gabriel. Mais uma vez aquele momento, aquele fitar. Ele sorri, charmoso, Cátia me apressa, ele se vira de costa para mim, eu, séria, mas sentindo “eu, Gabriel”.
Andamos até o meu prédio, nos despedimos, Cátia pega um táxi, eu procuro as chaves, abro a porta, entro no quarto, depois no banheiro, depois na cozinha, volto ao quarto, apago as luzes, deito, olhos abertos, depois fechados. Eduardo, lágrimas quentes no meu rosto; Gabriel, sorriso fino na minha boca, esperando a quinta-feira.