domingo, 24 de maio de 2009

Bom dia, Talita!

- Talita, acorda!
Era sete da manhã e Talita ainda estava deitada de bruços, com o braço direito pendurado na lateral da cama.
- Menina, levanta agora!
“Mas que diabos?!” pensou Talita, abrindo os olhos em fendas muito finas, deixando a visão muito embaçada para que percebesse a luz do sol entrando na janela.
- Levanta! – gritou a mãe, balançando Talita na cama.
- Ai, ai! Mas o que aconteceu?
- Você está atrasada pra escola, falta meia-hora pra aula começar!
- Só meia?! – perguntou a menina olhando o relógio em formato de gato na parede. Os olhos do gato iam para a esquerda e para a direita, enquanto Talita se lembrava da prova que tinha que fazer ainda no primeiro horário: matemática – Meu deus!
- Vai escovar logo os dentes, corre!
Talita saltou da cama, calçou os chinelos e correu para o banheiro. Escovou os dentes ao mesmo tempo em que tentava, de uma forma fantástica, prender os cabelos num rabo de cavalo alto. Voltou correndo para o quarto, já se trocando no meio do caminho, tentando vestir a camisa do uniforme. O irmão, que sempre arranjava um motivo diferente para faltar aula, apenas olhava a irmã, debochando do atraso da garota e vangloriando-se por estar com “muita dor de barriga para ir à aula”.
Talita finalmente pegou a mochila e as chaves da casa e saiu em alvoroço pela rua, correu durante três quarteirões, sem problema nenhum, até tropeçar nos próprios pés.
- Se eu pelo menos não faltasse às aulas de educação física... – lamentou a menina.
Continuou correndo, mesmo que mancando, pela rua, quando avistou o ônibus escolar na parada do próximo quarteirão. Gritou para que parasse, mas o motorista provavelmente não escutou, ou simplesmente não quis se atrasar para levar o ônibus de volta ao estacionamento da escola. Dessa forma, Talita foi obrigada a andar mais um quarteirão para pegar outro ônibus que não fosse escolar.
Ao entrar no ônibus já havia perdido as esperanças de fazer a prova pela qual havia sacrificado o final de semana para poder se recuperar das notas baixas da última avaliação.
- Falta cinqüenta centavos. – resmungou o cobrador.
- Cinqüenta, cinqüenta... – Talita procurou a carteira e lembrou-se de ter deixado na mesa da cozinha enquanto tomou meio copo de leite antes de sair de casa naquela manhã.
- Rápido!– gritou alguém na fila para pagar a viagem de ônibus.
Talita olhou para o cobrador gordo e bigodudo, que não parecia nem um pouco feliz aquela manhã. A menina lamentou um “não tenho, moço” e tentou passar pela lateral da fila, quando o cobrador disse para que ficasse pela frente, mas que levantasse quando entrasse algum idoso ou mulher grávida.
A viagem seguiu normal, até uma rua engarrafada, a duas quadras da escola. Enquanto o sol subia no céu e o calor aumentava com a quantidade de passageiros, Talita tentava estudar qualquer coisa, mas só tentava, sem sucesso algum. Decidiu descer depois de alguns minutos e seguir o resto do caminho correndo. Na sua maratona, alguns cães resolveram segui-la (talvez imaginassem que estava brincando com eles). O fedor dos cães era insuportável e Talita decidiu correr mais rápido para que o cheiro não impregnasse o uniforme. Tropeçou mais uma vez, sujando e ralando os joelhos no asfalto, dando tempo dos animais alcançá-la e se esfregarem das suas roupas. Chegou, finalmente, no portão do colégio e tentou entrar, dando “Bom dia, Dona Amália” para a inspetora da escola. Imediatamente a mulher se pôs na frente da garota:
- Você realmente pensa que vai entrar assim, não é?
- Assim?
- Sim.
- Assim como?
- Como? Bem, para começar, você está descabelada, está apenas com o lado esquerdo do par de meias, seus joelhos estão ralados e ainda está com o pijama por baixo do uniforme. – falou a mulher, num tom desprezível, olhando por cima dos óculos – e que fedor é esse?
Talita deu uma boa olhada para as suas roupas e percebeu a estampa de coelhinhos do pijama por baixo da camisa branca mal abotoada do uniforme. Levou as mãos aos cabelos, tentando amenizar o arrepiado que o ventou deixou nos seus cachos.
Nesse exato momento, Eduardo, o menino dito o mais educado, inteligente, popular, enfim, do colégio apareceu no portão, estava chegando também.
- Bom dia, Dona Amália. – sorriu Eduardo. Talita suspirou sem perceber.
- Bom dia Senhor Eduardo, pode entrar.
- Talita? É você? – o menino perguntou, observando a garota dos pés à cabeça, deixando o rosto da menina vermelho.
- É, sou eu... – falou Talita, abobalhada.
- Hum, que cheiro é ess...? Bom, pelo menos dá tempo de você voltar pra casa e se arrumar de novo, falta meia hora pra aula começar.
- O quê?
- É, falta meia hora pra aula começar, se você cor...
- Meia hora? Mas o meu relógio...
- Deve estar adiantado, você chegou cedo hoje.
- Se eu fosse você, seguiria os conselhos do seu amigo. Volte pra casa, troque o seu uniforme e, se tiver sorte, ainda chega para fazer a sua prova. – intrometeu-se Dona Amália.
- Meia hora?! - Talita gritou, acordando todo o bairro.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Vontade

Essa vontade de querer ter vontade sempre me assombrou, eu diria que me assombrou antes mesmo d’eu nascer. Lembro-me bem quando a minha mãe me contou o porquê de precisar fazer uma cesárea para eu poder nascer: a data do meu nascimento – a prevista – já havia passado há muito tempo e ela sempre argumenta que queria ficar ali dentro mais um pouco, que eu era medrosa. Por isso eu penso que, desde daí, eu quero tudo não querendo nada.
“O objetivo tá alí, bem pertinho” ela (mãe) me diz, “só falta mais um pouco, força!”, mas escutar a palavra “força” não me dá mais força; correr atrás do tal objetivo ainda faz sentido – sempre fez - mas os métodos, técnicas e macetes não servem mais: são insuficientes. Talvez o espírito da coisa não seja fazer por aí, talvez exista um ponto-centro para todos esses momentos de desistência que envolve todo o Objetivo (sonho, meta, etc.), talvez me falte encontrar o princípio, a minha arché particular, que eu perdi no caminho entre o outro e este plano (Céu, Terra, Inferno, que seja, mas eu perdi).
E a sensação? Nada simples: imagine-se necessitando de algo, que você precise exatamente disso para ter um bom dia (pode ser algo simples, como água). Agora, imagine-se vivendo sem isso (água) por muitos dias, muitas semanas. É lógico que você viveria com sede até morrer por causa disso. Pois eu me sinto assim, porém, não vivo isso em semanas, vivo em meses, anos, uma vida inteira; vivo em um deserto que insiste em me enganar da existência de um oásis muito próximo em qualquer dos seus cantos. Devo chegar ao oásis sem água e, por já estar sedenta e cansada, “engatinhar” na areia áspera e quente, com um sol a rir e debochar do meu esforço.
O pior de tudo é o “talvez”: “talvez” você consiga, “talvez” chova, “talvez” exista um oásis. Além desses tem o meu “talvez” latejante, pulsante, perguntando todas as manhãs: “Queres continuar?”. Apesar de tudo, jamais responderei “não”, pois o sol rirá mais de mim, a areia queimará mais as palmas das minhas mãos e o oásis desaparecerá, como um sonho interrompido ao se acordar.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

A fuga de Júlio

Ao acordar, Júlio espreguiçou-se e levantou bocejando sem cobrir a boca, deu de cara com o muro negro de todos os dias. Ao seu redor, ninguém havia acordado ainda, assim, Júlio resolveu contemplar as sombras que se moviam no seu muro escuro e sem vida.
Quando levantou a perna direita, dando um passo para trás, ouviu o som das correntes de ferro avisando-lhe que estava se distanciando da sua posição, que estava se distanciando do muro e que isso poderia ser muito perigoso. Ao invés de retornar os pés às pegadas deixadas por ele mesmo no chão arenoso, decidiu que daria mais um passo para trás e, dessa vez, as correntes reclamaram mais alto ainda.
Júlio andou mais alguns passos para trás, chegando perto de uma saída e percebeu que, aos poucos, a luz aumentava e que as sombras ficavam cada vez mais distantes dos seus olhos, a luz era muito forte, mal podia levantar seus olhos a altura do céu. Olhou então para o chão e percebeu o brilho de uma pequena chave na areia: era a liberdade, um novo mundo.
Ao se desprender das correntes enferrujadas, Júlio se sentiu desprotegido, como se seus conceitos já não servissem para o Novo Mundo em que se encontrava, conceitos pequenos, obsoletos, triviais. Caminhou por muito tempo sob a forte luz do Sol, observando, primeiramente, o chão de areia branca, depois a água azulada que quebrava as ondas em seus pés, depois o horizonte avermelhado do entardecer, para, finalmente, poder levantar a os olhos até o Sol (a luz que jamais havia encarado antes) que antes segava-lhe pela magnitude do seu brilho.
Júlio, vendo quantas idéias novas haviam no Sol, maravilhou-se e lamentou-se em perceber tudo que tinha encontrado fora da sua caverna e que tantos ainda estavam presos lá. Sem demora, retornou ao seu lugar de origem, com esperança de poder mostrar o Mundo para aqueles que apenas contemplavam as sombras no fundo da caverna.
Chegando à caverna, Júlio imediatamente pôs-se a contar sobre a areia, a água, o horizonte e o Sol e como era belo o Mundo, que tudo continha perfeição e novas idéias. Os homens sentados, ao escutarem a estória de Júlio, desconfiaram da sanidade de seu amigo: olharam-se todos e levantaram, ficando a altura de seu amigo, perguntando-lhe se estava bem, se não era um mal sonho que havia lhe acometido na noite anterior, mas Júlio negou sorridente, insistindo do que se passara naquele dia. Os homens não tiveram dúvida: atiraram-lhe à morte, sem hesitar e desconfiar do que seu amigo haviam contado, sem duvidar do um mundo real.