domingo, 29 de março de 2009

Descrição de domingo

A tarde estava excepcionalmente tranquila: havia uma monotonia adorável na forma como as nuvens atravessavam o céu e o imenso “teto azul” bocejava preguiça para quem se atrevesse a contemplá-lo.
O meu velho par de chinelos massacrava a graminha excessivamente verde e cheirosa do jardim, ao fundo, pude escutar o som das correias de bicicleta a tilintar e latidos frequentes dos cães da rua; estes últimos, provavelmente seguiam as bicicletas.
Depois de alguns longos minutos arrastados pelas nuvens, ergui o copo de refrigerante até a boca, bebi um gole gelado, grande, vagaroso. Abri os olhos ardidos do gole e me acomodei mais ainda na espreguiçadeira do jardim, que me pareceu afagar as costas em um tenro “gesto” de conforto.
Deitado ali, sem pensar muito, pretendi ficar até o pôr-do-sol, esperando pacientemente o quadro móvel do céu mudar completamente de traços, linhas e cores. Somente eu, o par de chinelos velhos e o copo de refrigerante gelado durante o dia todo, durante o domingo todo, na espreguiçadeira quase maternal, escutando os típicos sonsinhos do bairro, que me caiam como música pela tarde toda.

terça-feira, 24 de março de 2009

Post desabafo

Olá, vocês!
Bom, por onde eu começo? Ah, sim... Lá vai:
Agora mesmo, quando abri o navegador da internet, me deparei com uma notícia na página inicial (vocês podem até achar insignificante, mas eu lamento, esse post será sobre a tal notícia) que dizia assim:

“Um candidato que teve sua redação escolhida entre as melhores da Fuvest 2009 mandou um recadinho ao corretor, no fim de seu texto. Depois de se esquecer de colocar o título no início da dissertação, o vestibulando optou por ocupar a última linha e se explicou: "desculpe, só vi que precisava no final". Seu texto ganhou o título de: ‘As fronteiras perdendo poder’.”
(Candidato mandou recado a corretor em redação da Fuvest 2009 - notícia do site UOL Vestibular, do dia 24/03/2009 - 06h00; Ana Okada e Simone Harnik - São Paulo)

Vamos concordar que há redações e redações: algumas com conteúdo forte, idéias fortes... Mas também há aquelas que não conseguem convencer o corretor, algumas só possuem a ”estética” correta (margem, número de linhas mínimas e máximas, etc.) e nos mostram um texto cheio de clichês, bordões, enfim.
Mas agora vamos ao que realmente interessa esse post: eu, uma adolescente de 17 anos de idade, com ensino médio completo, um português “mais ou menos”, não diria estudiosa, mas esforçada, passo um ano da minha vida estudando sem descanso, e não pense que isso é só para concluir o tal ensino médio; eu acredito que, em um ano como esse, a maioria dos jovens não pensa muito em “terminar o colégio”, mas sim em passar no vestibular (foi assim comigo, pelo menos), e além de ir para as aulas normais da escola, me aventuro a estudar mais em um cursinho lotado.
Chega o dia da prova. Acredite de se quiser, mas eu não estava nervosa, sabia muito bem tudo o que eu tinha estudado e fui fazer a prova tranqüila (sim, eu dou valor ao trema).
Então chega o dia em que sai o tão esperado “listão”, com o nome somente dos que “passaram”, mostrando sua colocação e pontuação durante o processo seletivo do concurso. Você acorda de manhã, esperançoso, até liga o rádio para escutar o nome e fica criando na cabeça aquele momento em que “o locutor dirá seu nome tão rápido que você não vai entender bem, que sua mãe vai chorar e seu pai vai dizer: ‘Como eu estou orgulhoso!’”. Acontece que nada disso acontece: seu nome não está no tal do “listão”, o locutor só fala o nome de uma pessoa com a letra “J” (no meu caso) e você fica lá sentado na sua cama, com cara de perplexidade, de choro, de pena, de raiva, o que for.
No dia seguinte, você, ainda em “estado de choque”, conversando despretensiosamente com um amigo que “nunca pegava no caderno para estudar, não sabia o que significava uma simples vírgula e escrevia ‘eu AMO ELA’”, passa. Sim, aquele incompetente que não sabe o que significa cacofonia está na faculdade e você que quase decora um livro inteiro de gramática, não.
Sentiu o drama? É... Imagine isso acontecendo duas vezes em um ano.
Enfim, expresso aqui a minha insatisfação aos corretores, pelo desrespeito às pessoas que se preocupam em seguir as regras que eles mesmos elaboraram para uma redação, atribuindo nota dez aos que fugiram dessas regras.
Vocês já param para refletir (corretores – se algum estiver lendo) sobre isso?


PS: Eu sei (ou “acho”) que em dissertação não é obrigatório atribuir um título ao texto, mas mesmo assim...

quinta-feira, 19 de março de 2009

Flashes

Quarta-feira, acordo, me espreguiço, levanto irritada, vou ao banheiro, tomo um banho gelado, escovo os dentes. Volto para o quarto, olho o sapato no chão, viro e abro o guarda-roupa. Escolho a blusa pólo branca e a calça jeans azul, tento decidir entre o tênis branco e o preto, calço o rosa. Arrumo o cabelo. Pego a bolsa, saio de casa, tranco a porta.
Ando pela rua, esbarro em alguém, minha pasta cai no chão, ele se abaixa, pede “desculpa, moça”, me olha, eu me viro e continuo andando. Dobro a esquerda, encontro uma amiga, conversamos sobre inutilidades, me despeço, continuo.
Chego ao escritório, dou “Bom dia, Eduardo!”, ele não me olha, eu me chateio. Vou para o computador, continuo o relatório, paro para uma xícara de café, volto e escrevo mais, paro mais uma xícara, termino um artigo.
Hora do almoço, refeitório cheio, comida a quilo, sento sozinha. Eduardo ri atrás de mim, eu também ri um pouquinho, ele não fala comigo. Cátia chega, senta do meu lado, fala muito, eu finjo escutar tudo, mas ainda escuto Eduardo atrás de mim. Fim da hora do almoço.
Mesa bagunçada, eu solitária, o chefe chama: “Esse é Gabriel, você deve ensinar a ele o que fazer aqui, você treinará o rapaz”, reconheço o rapaz do “esbarro”, dou um sorriso amarelo, acompanho até o seu computador. Aviso o que ele deve fazer, ele me olhando, eu concentrada em voltar ao trabalho, Gabriel me olhando, eu desconcentrada. Eduardo chega, reclama para mim: “Ei! Você não falou comigo hoje!”, Gabriel me analisa, Eduardo solta uma gargalhada.
Minha mesa novamente, computador ligado, pilhas de papéis do lado direito. Eduardo no computador do lado: “Sílvia, você terminou aquele relatório? Preciso disso já, ou o chefe me põe na rua!”, suspiro cansada, volto ao trabalho. Escrevo rápido, minha cabeça reclama de dor, pego a minha xícara, levanto e ando rápido, quase corro, encho a xícara com café, derrubo em Gabriel, Eduardo ri, Cátia vem ajudar. Gabriel me olha, eu olho os olhos do rapaz; eu, Gabriel.
O dia termina, Eduardo vem pegar as pilhas dos relatórios, reclama que eu demorei muito, não agradece. Visto o casaco e pego a pasta e a bolsa, Cátia faz o mesmo com a sua bolsa e o seu casaco, andamos juntas pelo corredor; paro: Gabriel. Mais uma vez aquele momento, aquele fitar. Ele sorri, charmoso, Cátia me apressa, ele se vira de costa para mim, eu, séria, mas sentindo “eu, Gabriel”.
Andamos até o meu prédio, nos despedimos, Cátia pega um táxi, eu procuro as chaves, abro a porta, entro no quarto, depois no banheiro, depois na cozinha, volto ao quarto, apago as luzes, deito, olhos abertos, depois fechados. Eduardo, lágrimas quentes no meu rosto; Gabriel, sorriso fino na minha boca, esperando a quinta-feira.